Livro sobre o America, em andamento.

No Maracana, pela primeira vez.

Em nossa vida de menino há aqueles momentos de fulgurantes intuições que nos levam a atos
que ficarão para sempre marcados em nossa memória enquanto vivermos.

Foi assim que comecei, quando todos em casa e no bairro já sabiam que eu
era o garotinho fanático pelo America, com uma paixão que beirava o sobrenatural,
a pressionar meu padrasto para levar-me pela primeira vez no Maracana. Capitão Mike,como bom capricorniano,

não era de facilitar sem levar nada em troca e teria que ser um America e Flamengo para estimulá-lo
de forma a não permitir sabotagens dele para que eu tivesse meu sonho realizado.

O ano era 1978. Uma bela tarde de domingo. E não poderia ter sido escolhido um jogo melhor. O America entrou em campo de branco e aquele branco parecia , ou era, divinal.

Esse jogo entrou para história porque o ponta esquerda do America, Silvinho,

fez um verdadeiro gol de placa no empolgante empate de dois a dois.

Ao entrar e vislumbrar o interior do estádio, dei de frente com a torcida do America
do outro lado, num numero muito inferior ao contigente rubro-negro. Esse primeiro impacto me deu
novamente uma sensação de injustiça. Havia ,porém, naquelas faixas em vermelho e branco

uma nobreza, uma magia, uma sina que logo percebi que ali , entre aquela gente, era meu lugar e pressionei
meu padrasto, eu que estava vestido de America dos pés a cabeça para que me levasse até lá.

As faixas diziam “Torcida Organizada”, “Torcida Belfort Duarte” e outras. Só sosseguei quando
percebi que deixava para trás o lado rubro negro. Lembro-me que gritei
e vibrei como nunca, sobretudo porque o dia era do Silvinho, que infernizava

pela ponta esquerda.

Meu padrasto, anos depois, ele que tinha a mania de criar ficções e sustentá-la
como se fossem realidades, disse que eu gritava “vai, Silvinho, vai, Silvinho”
e que os outros gritavam “cala a boca, galego”.

Não posso negar que o capitão Micke foi um dos
humoristas mais sofisticados que conheci nesse planeta
divertido, quando os seres sem imaginação não estragam a nossa vida
com a estupidez.
Como explicar a comunicação que sempre houve entre as cores e coisas do America e minha alma?
O jogo terminou dois a dois e ficou na história do clássico.
Eu sai orgulhoso do meu time do Maracanãe e com o senso
perfeito de agora sim, e para sempre, ser cidadão americano.

Trecho do livro sobre o America a ser editado em breve, com o título guardado a sete chaves.

Marcelino Rodriguez

Sobre Marcelino Rodriguez

- Escritor hispano-brasileiro, autor de: "O Observador de Pardais", 1996; "O Espião de Jesus Cristo", 1999; "Juvenília", 2000; "A Ilha", 2001; "Café Brasil", 2001; "Boneco de Deus", 2002; "Mar Romântico, Mar", 2002; " Bom Dia, Espanha!", 2005 "Anjo da Tarde", 2008 "Sol da Meia Noite", 2009. - Ganhador de: Prêmio Pérgula Literária Internacional, Medalha Ação Cultural Troféu Dez Mais Taba Cultural Editora. - Em 2004 o autor viveu em Córdoba, Argentina entre Janeiro e Março. Em maio de 2005 sai Bom Dia, Espanha! livro que relata essa experiência. Na foto, o autor com Paulo Coelho no jazzmania, Copacabana, em 1991. Iniciei minha busca espiritual e minhas pesquisas espiritualistas em 1998, quando ingressei em alguns caminhos dessas ordens espiritualistas e lendo o movimento new age.

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