Quinta da Boa Vista
QUINTA DA BOA VISTA, 2006
Marcelino Rodriguez
Morei durante longo tempo perto da Quinta Da Boa Vista, onde ia pouco durante o ano . Porém, com o tempo, reparei que sempre que ia lá e sentava-me perto de um dos lagos, um pássaro branco seguia-me. Isso ocorreu quase uma dezena de vezes, quando eu levava moças para passear comigo. Percebi que era um padrão mágico da minha vida. Numa das primeiras vezes que Flavio foi lá em casa, eu convidei-o a ir ao parque comigo, pois queria fazer determinadas praticas da Tradição dos magos brancos com ele. Ele foi a primeira pessoa que contei sobre minha relação mágica com o pássaro, pois negava até para mim mesmo que o fato acontecia. Era extraordinário demais. Como ,porém, nossa relação era pautada pelo código dos cavaleiros de Perfeito Amor e Perpeita Confiança, abri um pouco do meu coração secreto para ele. Quando chegamos ao Lago, ele perguntou-me:
– E ai, será que seu amigo vem hoje? .
Eu já estava sentado na grama com as pernas em posição de meditação.
– Ele não costuma falhar, não. Vamos ver. Flavio, faz o seguinte pra mim. Fecha os olhos, respira fundo durante um minuto, prende durante um minuto, depois solta. Faça isso dez vezes, por favor.
Quando ele fechou os olhos, depois da terceira respiração, vindo dos países mágicos cheio de estilo, o majestoso pássaro branco pousa na beira do Lago, praticamente em nossa frente. Minha alma ficou extasiada. Não disse nada ao Flavio, deixando ele com sua pratica. Quando ele abriu os olhos, porém, foi a primeira imagem que ele viu; o pássaro parado na borda do lago, em nossa frente, sereno e hierático. Ele arregalou os olhos.
– Cara, não acredito!. Tu é muito Jedi. Meu Deus, que coisa linda! Caralho. Tu é o Ioda.
– O Ioda não, ele é muito feio. Pode ser o Luke.
Passado o assombro do milagre, ensinei-lhe a pratica da oração diária e silenciosa por três pessoas. Muito simples. Você escolhe três pessoas que queira bem e faz uma prece para elas, uma de cada vez, durante uns cinco minutos. Não é preciso contar para as pessoas.
Essa pratica, além de energizar-nos, ajuda-nos a deixar o egoísmo de lado.
Depois desse dia, Flavio, Cintia e Miguel passaram a chamar-me de Jedi.
TRECHO DO NOVO LIVROO TIGRE DE DEUS EM SEU JARDIM
Direitos Reservados
FINAL DOS ANOS OITENTA, DÉCADA DE NOVENTA 2
BIBLIOTECA NACIONAL, RIO DE JANEIRO *
Marcelino Rodriguez
Saio da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro com uma verdadeira vertigem,
após a leitura das Flores de Mal de Charles Baudelaire. Depois de lê-lo, o mundo havia se transformado a meus olhos completamente. “Tende Piedade,
Satã, de nossa longa miséria longa miséria!”, ecoava em minha mente os versos do frances enquanto automóveis e pessoas pareciam sonâmbulos de um pesadelo; Para Charles, a salvação humana só pode dar-se caso o demônio liberte a espécie do seu longo julgo, uma vez que segundo ele as almas eram demasiadamente débeis para para seguirem Jesus Cristo; ´”É o demônio que nos move e até nos manipula” – Ninguém escapa após ler as Flores do Mal de sentir um arrepio de verdade sobre o império do mal que a humanidade profana obedece. Os verdadeiros cristãos são cruzados que se rebelam contra o demônio, buscam subjulgar sua natureza inferior com a disciplina do combate e ,embora vez ou outra, possam sucumbir ainda ao erro e ao pecado, acabam pela bravura e pela graça de Deus alcançando a redenção. São aqueles que o Messias fala serem são nascido do espírito. Lembro-me que sai da Biblioteca pela Avenida Rio Branco hipersenśivel, percebendo que tinha pisado em um universo paralelo. Era capaz de ver os
perversos num tempo futuro sendo levados as profundezas do inferno pelos demônios alados que os acompanham, escamosos como dragões num crepúsculo infinitamente melancólico, hollyhodiano.
TRECHO DO NOVO LIVRO O TIGRE DE DEUS EM SEU JARDIM
Os sinais
Durante todo nosso treinamento espiritual, Miguel não me ligou mais do que duas vezes; nosso contatos eram todos via email, messenger ou quando eu o ligava. Num desses dias que ele ligou-me, o tempo e o espaço ficaram suspensos na sublimidade e na beleza. Ele mandou-me, mal eu disse alo a entrar no messenger,
Por que você quer seguir esse caminho medieval, meu caro?
Fui pego completamente de surpresa e fiquei sem saber o que dizer.
Vamos, me diga, porque você quer ser um cruzado?
Nisso, começou a acontecer algo inusitado. Um pensamento que parecia vir de outra parte de mim, na verdade um pensamto imagem bastante obsessivo da Virgem Maria começou a tomar-me a alma., de modo que eu estava ficando tonto e quase caindo em cima do computador. Sentia-me angustiado demais, pois além dos tormentos que passava na minha relação com Sara, ainda tinha que de vez em quando passar pelos testes periódicos de Miguel. Não sei quanto tempo durou essa tensão, o fato é que me dei conta que aquele pensamento “invasor” era a única coisa que me ocorria após aquela pergunta inesperada:
A Virgem Maria, – respondi ,finalmente, num misto de também estar perguntando, como se minha resposta fosse também uma interrogação.
Humm, pode ser um sinal, meu caro, mais existem outros. Estou até desconfiado
que tem coelho nessa toca, mais existe ainda muito ego ai.
Volte a sua simplicidade, garoto, lembre-se de seus melhores sentimentos da sua aurora espiritual.
Foi um sinal, Miguel?
Não sei. Pode ter sido. Vamos investigar. Agora deixa eu sair do PC que o chato do meu irmão quer entrar.
Miguel encerrava nossas conversas sempre com motivos prosaicos, tais como esse da chegada do irmão ou que estava com diárreia por causa do cachorro quente de sua cidade ou que ia pra o site de especialistas
em canários. E mandava-me um beijo na bunda com um ebotion do messeger, aquele do chapeuzinho de palhaço.
TRECHO DO LIVRO “O TIGRE DE DEUS EM SEU JARDIM”
O TIGRE E SUA BELEZA
Madrugada dessas, o dia amanhecendo, eu estudando o Tyger de William
Blake pelo smartphone, para em parte justificar o título desses relatos. Quando dei por mim que, naquele mesmo momento terroristas, patifes, psicopatas, endemoniados e toda mais uma diavoleria estariam também despertando para seus crimes e mais coisas hediondas, não pude deixar de sentir uma ternura pela minha pessoa, tantas vezes ignorada nas suas melhores intenções que acabei optando por uma vida semi-reclusa, no próprio jardim de minha alma, que é de onde vem os melhores perfumes. Não tenho razão?
Quem mais, nessa planeta macabro, estaria com tal preocupação? Estudar Blake?
Onde estão meus irmãos? No atual estágio do mundo, a coisa mais misteriosa de se encontrar é uma boa pessoa. Eu me esforço meu tanto para ser; insistir em escrever num mundo onde cada vez se lê menos e onde a burrice é incentivada ajuda-me a lembrar que não preciso fazer parte da manada,
que vive sem pé nem cabeça sobretudo em países mediócres que não
ensinam seus jovens o hábito de ler cedo. Porque o homem é reflexo de
sua capacidade ou não de perceber a estética do mundo. Para um homem
comum, um tigre é apenas um tigre. Para um homem com sensibilidade
educada, um tigre é um espetáculo de estética, simetria, força, beleza, explendor, arte, exibicionismo, matemática e sobretudo poesia, da melhor e mais selvagem poesia. Quem poderia duvidar que somente um ser divino poderia criar um Tigre?
Direitos Reservados – trecho do livro Tigre de Deus
O GRAAL – TRECHO DE O TIGRE DE DEUS
O GRAAL – TRECHO DO LIVRO O TIGRE DE DEUS EM SEU JARDIM
As vezes, eu passava horas com Miguel no messenger falando bobagens, trocando emotions, buscando , subrepticiamente, que ele me revelasse mais sobre o modo de proceder da Ordem e da minha história espiritual . — Vamos, Miguel, conta ai. Onde está o graal?
– Você na verdade bebe dele todos os dias , meu caro, a cada nascer e por do sol ele passa por você, generosamente.Beba-o.
Hoje em dia, penso ter uma intuição sobre as pistas do sagrado e quando estamos perto das mãos e das faces de Deus em nossos caminhos diários. Dentro de nós correm dois tipos de energia: uma pura, outra contaminada. Assim também nos outros. Grandes segredos Jesus falou sobre isso e João revela no seu evangelho. Quando buscamos dar o melhor de nós, nosso esforço e suor cheira a vinho e comungamos. O esforço correto é sempre doador. A energia contamidade são sempre os impulsos de vaidade, egoismo e mentira. As pessoas verdadeiras do mundo estão unidas por um laço indissolúvel de amor. Para obter a sabedoria pura da fonte, é preciso olhar todos os dias o mundo como uma criança , como se fosse a primeira vez.
Direitos Reservados
A BUSCA – Trecho do novo livro
A BUSCA
Final dos anos oitenta, década de 90
Em parte, influenciado pela literatura de Fernando Pessoa, comecei
cedo meus estudos da verdade pelos rosacruzes, am 1988.
Uma década após, num desses
ritos de passagem de um grau para outro, conheci Dora, uma morena
alta que pertencia a outro Templo da Ordem,
na Zona Sul do Rio de Janeiro. Estavamos na cantina, trocando
umas idéias. Dela emanava uma força quase “visível”, o que é
uma das prerrogativas dos esotéricos que verdadeiramente trabalham
seu interior.
Ela trazia uma cruz egipcia, a Ansata, ao pescoço. Os cabelos
pendiam preenchendo os ombros e parte do pescoço, enquanto ela comia
um lanche elegantemente. Estavámos felizes pela beleza
do ritual que vivenciarámos. Ela disse-me:
– O ser humano não é feliz porque é mesquinho.
Aprenda isso, Frater.
Hoje ainda ,quase cotidianamente, dou de frente com a verdade
dita por Dora naquela noite iluminada em quase todas es esquinas
que passo, aqui e além.
CAPA DO LIVRO “TIGRE DE DEUS EM SEU JARDIM EM GESTAÇÃO”
CAPA DO LIVRO “TIGRE DE DEUS EM SEU JARDIM EM GESTAÇÃO”
lançamento 2011
CAPA DO NOVO LIVRO EM GESTAÇÃO
http://rodriguezgrafica.files.wordpress.com/2011/03/o-tigre-de-deus-no-seu-jardim.jpg
TRECHO DO LIVRO “TIGRE DE DEUS”
A gripe da noite parece sinalizar que ainda não estou inteiro em mim, que a paz ainda não está completa, que ainda há terreno a ser descoberto, conquistado, que ainda não vesti a roupa exata, ou que ,de certa maneira, ainda não posso fincar a bandeira da vitória. Não, faltam algumas coisas para a liberdade; o amor, porém, é graça. Eu só sei que sangro no caminho, mas também sei que o sangue de Deus sangra comigo.
Zona da Mata, Mineira. 23:55
28.01.20011.
2
Um dia, em fins do ano 2006, depois de mais uma vez que ela terminara comigo, e dessa vez não haveria mais volta, bebi o suficiente para perder a consciência da noite. Engraçado que ao relembrar isso, tenho a sensação de que algo em mim morreu ali, claramente. Compreendi que estava latente a minha destruição. Contudo, consegui chegar em casa e dormir. Acordar, porém , foi difícil. Assim que levantei-me comecei passar muito mal. A cabeça doía muito e sem saber o que fazer, liguei.
– Alo.
– Sara… quando tentei falar, comecei vomitar.
– Alo, alo, o que ta acontecendo?
– braaaaaaaaaaaaaaaaaarghhhhhhhhhhh
– Você ta vomitando é?
– É… vomitei tudo aqui, me ajuda.
– Eu vou ai, espera.
Deitei novamente no quarto escuro, sujo, sombrio, com a alma num umbral de horrores, depois de limpar porcamente o vomito. Uma hora depois ela chegou e me lembro perfeitamente da calça comprida rosa. Deu-me uma nelzaldina e me deu, eu deitado na cama e ela sentada na minha cadeira do computador, com o livro do Iogananda, “Autobiografia de um Iogue” na mão esquerda, porque a direita dela eu segurava e me amparava. Ainda tentava brincar para disfarçar minha derrota.
– Me dá um beijinho ai.
– Até que pensei nisso, mas você ta fedido.
– Me dá essa bundinha pra mim.
– Fica quieto, moço, você ta quebrado.
Essa era a cena na penumbra do quarto; ela sentada e eu segurando-lhe a mão direita ora com uma das minhas mãos, ora com as duas, enquanto ela lia, as vezes esboçando um sorriso com a leitura.
– Só um pouco de bundinha.
– Sossega.
De vez em quando ela comentava uma passagem comigo.
– Conheço o livro, meu bem.
E ficamos assim de mãos dadas, até que ela disse que tinha que ir. Eu agradeci ela ter vindo e com o resto de forças levei-a na porta; depois, pela janela ia vendo ela se perder na distancia, que quanto mais ela se distanciava, mais crescia meu desalento e percebi que não conseguia alcançá-la mais. Depois ela cortou completamente a comunicação comigo e tive que tentar sobreviver ao abalo. Até encontrá-la, eu pensava saber o que era o tempo, o espaço, a mente, os sentimentos, a filosofia, o sexo, a dignidade, o destino. Era um gato que pensava ser um tigre. Foi com ela, porém, que nasceu o Tigre. Batizado pela experiência, pela fatalidade, pela beleza, pelo inusitado. O amor, que contém todas as coisas e fazia com que um homem chamasse uma mulher quinze anos mais nova –, que corava de modo encantador, — de mamãe.
Zona da Mata – Minas Gerais., fevereiro 2011.
