PRIMÁRIO PORTUGUÊS

O BUDA LABRADOR

O BUDA LABRADOR

O Buda chegou-me numa noite de Setembro, trazido por um casal que vendeu-me-lo fiado, barato e em duas vezes. Veio se sacudindo dentro de um saco branco como se fosse uma fera. Um predador perigoso, dir-se-ia. –Nossa , filhote desse tamanho? Ponderei – Sim, tem apenas sete meses – disseram-me. E só foi botar a cabeça de fora e começou a latir. Assim me chegou ele, doravante batizado Buda, nome que ele parece que adorou, pois é só dizer “cadê o Buda do papai” e ele começa a pular muito alto, com o rabo de um lado para o outro, festeiro que só. Todo branco e com um focinho enorme, os olhos muitos negros e arteiros. De fato, um garotinho grande e desajeitado, glutão. Adora comer. Come com uma voracidade cômica. Deve ser por isso que o casal parecia querer livrar-se da fera. Cheio de manha ele, quando faz arte, tipo sair derrubando o balde de lixo, tirando a long neck vazia e trazendo para fora do lugar, na minha porta. Faz uma farra extraordinária com panos, papéis, panelas, o que tiver pela frente, um tufão de alegria, bagunceiro. Dócil, porém. Toma banho com uma paciência danada, parece que medita. E vou cantando para ele, “Olha o Buda do Papai, meu Deus, todo molhado”. Não pode me ver que fica todo alegre e estabanado, pulando alto e abanando o rabo, atropela-me. Se lhe coço a barriguinha ele põe as patas pra cima como quem diz, “pode fazer carinho a vontade” e se ameaço que vou bater nele, bate em retirada, cínico. A qualquer momento do dia, noite ou madrugada, sua amizade e companhia é certa, sua ternura é sem tédio. Nunca guarda rancor. Meu Labrador me trouxe de volta a alegria de ser amado e necessário. Recomendo a vocês, caso entrem nos esgotos da afetividade humana, um Buda Labrador. Depois me contem o resultado. È tudo que há, O Buda. A felicidade é cachorro.

Direitos Reservados.

PRIMÁRIO PORTUGUÊS

Marcelino Rodriguez

Uma das pessoas que eu mais tinha prazer de conversar foi o seu Hugo, dono de um bar numa rua aqui perto. Ele só tinha o primário e naquela época que já deve ser um pouco remota, estava em estado de pobreza o país. Seu Hugo só pudera fazer o primário e tivera que deixar a terra natal. Nesse tempo, eu ganhava parte da minha vida como editor e seu Hugo, acredite, tinha uma epopéia escrita em quadras rimadas, com mais de sete sílabas, formando um totalitário que eu estaria mentindo se dissesse que saberia exatamente quantas eram, mas com certeza passavam de duzentas páginas rimadas e devo reconhecer que haviam versos e pensamentos, alguns, de muita qualidade. Ou seja, apenas com o primário da roça de Portugal foi uma das pessoas mais inteligentes e lúcidas que conheci no Brasil. Eu vejo pessoas formadas exercendo diversas profissões de destaque por ai que não possuem a educação de seu Vitor, nem de longe. Se fosse comparar pelas minhas observações entre o senso que seu Vitor tinha e o brasileiro tem em relação as coisas – não estou falando do brasileiro analfabeto, estou falando do brasileiro formado – seu Vitor poderia ingressar no primeiro ano universitário de qualquer universidade brasileira e ia se destacar de longe. O bar dele era curioso, tudo tinha preço, até um alfinete. E ele me dizia que todo mundo que entrava lá perguntava quanto era, como se não houvesse nada escrito. Falta de ordem, de disciplina, de atenção, de conteúdo, de essência, de compaixão, de estética e de solidarieade: eis o que causa a falta de leitura numa educação sem fundo. De um a dez, podemos dizer, observando andanças, estatísticas e resultados sociais por ai, que se o brasileiro em educação está chegando a três é lucro. Lembro-me que uma vez ele virou-se para mim e disse: “não conheço sua cultura, mas respeito sua cultura”. Ele sabia que eu tinha alguma cultura e que isso podia ser importante. Por aqui. mesmo com dez livros escritos, não há respeito nenhum. Nenhuma importância. O que é a cultura para quem não quem não a tem e Deus para quem não sabe o que ele significa, além dessa gritaria toda? Lembro-me que certa vez freqüentava um grupo espiritual e quando vi que tinha uns amigos desempregados, uns quatro, decidi organizar minhas obras, que eram umas sete ,acho, e expor para o grupo; comprei vinho, comes e bebes, fiz convites na gráfica, movimentei o mercado e devo me orgulhar: estava bonitinho. Meus amigos fiéis foram, como sempre, e me salvaram. O pessoal do grupo ficou só comendo e olhando com cara irônica o evento, como se nada tivesse acontecendo. Como se eles tivessem me sacaneando. Claro que não lucrei nada talvez, não lembro, lembro que meu amigo que ficou vendendo os livros, um dos desempregados que era do grupo, não quis receber e foi nobre nisso. Peguei os comes e bebes que sobraram e levei para casa. Não, eu nunca choro por mim; eles nunca sabem o que fazem, aqueles que não conhecem nem Deus nem os livros. Noventa por cento dos formandos brasileiros são incapazes de escrever o livro de seu Hugo. Essa história que português é burro tem que ser repensada. A finalidade desse texto é apenas para que os brasileiros sejam mais autocríticos. Já seria um bom inicio.

Direitos Reservados

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One thought on “PRIMÁRIO PORTUGUÊS

  1. É O BUDA CHEGOU EM BOA HORA. CONHECENDO A FAMA DO LABRADOR, MAS TAMBEM DE TODOS OS CÃES E ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO, COM CERTEZA FAI LHE SER MELHOR DOS AMIGOS.
    TERA O QUE VC SE DESENCANTOU DOS HUMANOS E MUITO MAIS. TERA O Q NÃO SE PRONUNCIA EM PALAVRAS. UM OLHAR DE AFAGO DE COMPREENÇÃO NUM MOMENTO DE SOLIDÃO E DE DESENCANTO.

    TENHO UMA GATA, MEIA SIAMES E MEIA VIRA LATA. GATA, VC SABE É UM SER INDIVIDUAL, PORTANTO HA MOMENTOS DE DESACORDO COM A DONA. MAS MESMO ASSIM SABE MELHOR
    DO QUE NINGUEM ME COMPREENDER.

    AI EU PENSO NO SEU HUGO. ATE VEJO DIANTE DOS MEUS OLHOS, COMO UMA LEMBRANÇA DA INFANCIA, SEU HUGO DIANTE DO BALCÃO METICULOSAMENTE ARRUMADO E CADA COISA NO SEU LUGAR, E NAS HORAS VAGAS ESCREVENDO NO SEU CADERNINHO AS SUAS POEMAS. CONVERSANDO EDUCADAMENTE COM CADA UM QUE APARECE NO SEU BARZINHO, COM SEU SOTAQUE INDISCUTIVEL. aCHO ATE QUE JA CONHECI ESTE SEU HUGO. SO QUE NÃO SABIA DESSE CADERNINHO DELE. DESSE SEU SEGREDO QUE SO CONTA AOS AMIGOS MAIS CHEGADOS.

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