CARTA AO ARNALDO JABOUR

CARTA AO ARNALDO JABOUR

Marcelino Rodriguez

Meu caro Arnaldo Jabour, primeiramente: saudações! Acompanho seu trabalho e quase sempre concordo com seus textos, de modo que reconheço ser o amigo um intelectual valoroso, um espírito crítico tão em falta nos tempos despersonalizados e mediocres de hoje; esses dias, porém, chegou-me um texto de sua autoria via internet, que pelo estilo não me deixou dúvidas que fosse de sua autoria, no qual o amigo diz que o brasileiro é vagabundo, babaca, otário e bobalhão, exatamente nesses termos. Para mim, seria muito fácil incluir-me fora dessa porque sou espanhol por parte de pai, ao qual com certeza devo meu temperamento majoritário, uma genética imperativa, um espírito único, porém sou brasileiro por parte de mãe, uma mulher que assim como milhões e milhões sofreram e sofrem com um país culturalmente cruel, onde o brasileiro na verdade, embora manifeste esses e outros defeitos de caráter que o amigo cita, alguns mais graves ainda tais como excessivo descaso com o conhecimento, ele, o brasileiro, na verdade não pode ser comparado com pessoas de países mais civilizados onde existe o hábito da leitura; aqui o brasileiro nem deixou de ser índio, porque não assimilou a cultura européia que veio dos portugueses e outros brancos, nem deixou de ser escravo, embora saísse das senzalas.

O fato é que o brasileiro, esse ser amorfo, ainda não foi civilizado. Por isso, ele manifesta essas qualidades selvagens que o amigo cita, o que faz com que um sujeito intelectual e europeizado como eu, por exemplo, viva isolado e quase como um refugiado, porque quando um tipo livresco na selva não tem apoio de parte alguma ele facilmente é devorado, já que onde não há cultura há barbárie. E no Brasil não há cultura. O homem brasileiro, uma grande massa de oitenta por cento da população nunca leram cinco livros na vida, o que já é patético, meu caro. No fundo, o brasileiro não é um vagabundo, nem babaca, nem otário nem bobalhão, ele é tudo isso e mais uns zeros, porém isso tudo porque ele sofre a pior das chagas humanas: é ignorante. Isso, Jabour, o brasileiro é ignorante do essencial. Conheço literatos que se odeiam e se desprezam, são os selvagens intelectuais; na verdade, o amigo que tem mais projeção na mídia, poderia denunciar o verdadeiro câncer do brasileiro: a falta de leitura. É daí que saem os vagabundos, babacas, otários, bobalhões, psicopatas, sociopatas, debilóides, indiferentes, pulhas, patifes, subalfabetizados e mais um monte de mazelas, para não dizer titica, que os poucos (e são poucos mesmos) homens e mulheres lúcidos que habitam essa terra tem de conviver. Eu já até sai do país por puro stress e medo.

Como pode um povo desprezar a beleza da poesia? A alegria republicana? O prazer de pensar e de crescer com o conhecimento? Os valores éticos que trazem os livros sagrados? Como pode um homem que aprendeu ler, se é que aprendeu interpretar não querer saber de nada além que seja cachaça, sexo, futebol, dinheiro e sacanagem? O problema do brasileiro, Jabour, é que ele não assimilou os valores da cultura universal; um certo comportamento de principio, meio e fim que toda pessoa bem formada nas escolas de base conhece, como dar descarga, respeitar o coleguinha, ler os contos infantis do Lobo Mau e da Branca de Neve, ver o filme O Rei Leão, O Mágico de Oz e sobretudo um pouco de Walt Disney. Ah, Jabour, eu tive toda essa felicidade na infância! E posso te dizer que ninguém é mais triste que eu ao perceber milhões de seres humanos que desconhecem princípios básicos de hierarquia, bom senso, solidariedade e vida coletiva. O brasileiro, Jabour, não é vagabundo, babaca, otário, bobalhão.

O brasileiro, meu caro, é simplesmente ignorante; essa é a causa dos males , o resto é conseqüência disso. A propósito, meu , tenho um projeto de educação simples e barato através de Metas de Leitura nas séries de base, que é onde se forma o caráter e o hábito da leitura tem que ser cultivado e adquirido na infância. Fazer as crianças lerem até quatro livros anuais no mínimo poderá em pouco tempo e com baixo custo dar ao brasileiro do futuro a chance e o prazer de ser gente qualificada. O que se tem hoje é uma população que não sabe funcionar, porque para funcionar bem é preciso, em grande parte, ler. Enfim, meu caro Arnaldo, era o que eu tinha a te dizer sobre o brasileiro. Ele não é isso nem aquilo, ele simplesmente ainda não é, porque para ser é preciso saber e ele, o brasileiro, não sabe. Um povo que não lê é escravo da estupidez e nesse quesito o Brasil está na pré-história.

Forte Abraço, Jabour. Vamos bater na tecla da leitura para livrarmos, ao menos as gerações seguintes, dos babacas pegajosos e inoperantes.

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2 comentários em “CARTA AO ARNALDO JABOUR

  1. Leitura é uma prática imperativa no Brasil; é difícil encontrar pessoas que desafiam a mediocridade do brasileiro, porque muitos são os que ganham com ela. Basta ligar a TV, o rádio e ver como a imbecilidade dá lucro.
    Excelente texto!

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