VINTE POEMAS

PRÓLOGO

Desde o ano de 2008 que venho lançando ebooks e distribuindo gratuitamente pela WEB, pois meus sentimentos, graças a Deus, levam-me a hiperatividade literária. E mesmo que muitas vezes somente o silêncio e as limitações cercaram-me os dias, fico feliz que ainda consegui tornar “solenes coisas banais”. Escolhi esses vinte poemas por motivos diversos; a maioria deles está em meus livros já publicados ou em sites da Net. Porém, para quem está mais acostumado com minha prosa poderá ser um drink diferente experimentar essa bebida que os deuses deram-me cedo: a poesia.
Um dia quem sabe os educadores irão ler poemas para as crianças logo nos primeiros anos de aprendizado. Tenho certeza que essa semente plantada cedo pode salvar muitas almas humanas futuras pelo único caminho que é possível a salvação: a beleza.
Fiquei orgulhoso de ver que consegui salvar-me a mim mesmo em dias difíceis e salvar a parte boa de momentos ambivalentes entre o bem e o mal,
Além dos encontros repletos de mistério e êxtase com
Santa Tereza e a Virgem Santíssima, meu tesouro maior.
Sim, esses vinte poemas são meus.
Agora ao mundo os entrego.

Outubro, 2010.
Zona da Mata, Minas Gerais.

VINTE POEMAS – Reprodução do meu ebook do ano de 2010. Dessa vez resolvi fazer uma seleção de vinte poemas, poemas esses que estão esparsos pelas minhas obras em geral e alguns deles publicados no meu livro “Juvenília”, no já quase tão distante ano 2000.

SEGREDO DO SEGREDO

Esse bate bate inquieto
Do meu coração,
Diz-me algo que não escuto.
Mas que importa?

Até quando ele é indecifrável e profundo
Até quando ele me fala
E eu, miseravelmente, não ouço,
Ainda é voz maior.

Deus pode ser esse órgão
Que nos grita e nos leva
A caminho do enigma.

1986

DESCOBERTA

A tarde é morna,
Repetida, indolente.
Os homens chegam
Cansados dos deveres.

Ó Santa Maria, a vida,
A vida não é assim,
Sem o fogo ardente!

No crepúsculo de verão
As nuvens desenham
Outros sonhos – coração
Dilacerado! – Como voar?

De repente, descubro:
Deus é azul celeste.

CANÇÃO DE MARIA

Quanto tempo de mistério e consolo
Tenho de ti, enquanto passo nesse mundo!
E penso que nada fiz por merecer.
Apenas nasci seu menino.
E do céu me viste sempre
E te Revelaste minha mãe,
Acalmando meu coração
Nos dias de tristeza e perigo.
Sim, nas espumas das nuvens
Atendes meus rosários
E dizes, quando todos faltam: sou sua mãe.
E assim toda ternura do mundo
Me leva pra longe,
Onde não há tristeza, doença nem morte.
E minha alma canta de alegria eterna
Porque do céu ela me disse:
Sou eu, sua mãe.
Então eu deixo pra lá tempo
Então eu deixo pra lá a terra e seus errores
Porque tudo que me importa saber
È que minha mãe esteja sempre comigo
Nas catedrais, nas capelas, nos meus sonhos!
A ela então, minha canção mais iluminada
A ela, então, minha cambalhota de alegria
A Ela, meu verso de ouro e diamante.

AMOR EM DOR MAIOR

Labutas na solidão
A sensibilidade excessiva
Que une o eterno ao dia.
Te equilibras no corpo frágil
Com arte rara e coragem
Sobrenatural.
Tudo é forte e pequeno,
Milagroso e alado,
Quando as palavras me tomam
Como lágrimas que caem sem querer.
É como um parto de mãe,
Com inocência divina
Que vejo meu poema nascer
Entre o desespero e alegria.
Eu preciso não morrer.

DORME, NENÉM

Dorme, Melzinha, dorme.

Dormes com borboleta nos sonhos,

Enquanto eu velo na madrugada

Ao som de canções eternas

Esse coração selvagem, filho de suas mãos.

Verdade que devia estar dormindo como qualquer mortal,

Mas a noite é fria, a cama é larga e me expulsa sua ausência.;

Ao redor e acima o céu negro, sinto-me sem amparo.

Deus estaria aqui com seus anjos nessa noite?

Então por que esse tempo suspenso na eternidade?

Dorme, Melzinha, dorme…

Dorme que te velo.

Dorme que velo por nós.

Perdoa apenas esse menino que não dorme,

Porque seu sono está indo com aquele barco

Criado por Noé há muito tempo atrás…

Dorme, Melzinha, Dorme,

Enquanto eu como sozinho essa maçã na noite

Cheio de sua luz, pleno como um Deus.

Dorme, Melzinha, dorme.

Dorme com seus anjinhos.

(Só o amor não adormece

E floresce na fresta das estrelas…)

A SANTA SEDUTORA

Marcelino Rodriguez

Eu buscava uma montanha
Sem sequer mesmo saber
De uma solidão a outra
Nos áridos dias.

Pés, mãos, alma cansada
Sem cavalo e sem guia
Sem cão e sem amor
Enfim, desencontrado.

Foi quando Tereza, a Santa, apareceu
E deu-me as mãos , mostrando-me,
Seduzindo-me suavemente,
Que além de mim
Há o Carmelo,
Que além do Carmelo
Há Deus.

Desde então, desposei Tereza,
A Santa.

10/2009

ENREDO

O silêncio traz-me enredos
Intensos
Para eu dispor em palavras.
Se meu peito não fosse forte
Não suportaria.
Se mirarmos bem o mundo
Veremos:
Tudo é poesia.

19/01/2002

MENINA DO MAR

Menina do Mar, leve-me
Aquele verde parque
Onde falamos dos peixes
E do verde, com o vento
Cantando a paz nas árvores.
Leve-me, menina do mar.
Ponha-me no seu colo,
Deixa-me descansar da guerra
Um pouco que seja
De ternura eterna
Deixa-me descansar
No seu colo,
Menina do Mar.
Contigo, o sonho vale
O mar profundo
Que cura o mal do mundo.
Deixa-me descansar
No seu colo, olhando no céu
A ave que voa minha liberdade.
Deixa-me ficar aqui contigo,
nesse parque do repouso,
Menina do Mar.

28.01.2005

AS ONDAS NAS PEDRAS

Onde adormecem os sonhos que morrem lentamente, deixando rastros no coração? Quem ouve a canção dessas dores secretas? Quem chora por elas no tempo?
A tristeza é um leopardo no escuro.
Sentimentos sem asas, anjos feridos.
Um grande silêncio.
Um grande silêncio paira sobre os sonhos que amanhecem e não vingaram.
A tristeza é um leopardo no escuro.
Os sonhos esquecidos são como as pedras a cantar nas ondas eternamente sob o silêncio de Deus.
A tristeza é um grande Leopardo no escuro.
Onde adormecem os sonhos que morrem lentamente no peito dos solitários?
Essa é a pergunta das ondas nas pedras e do vento ao tempo.
A tristeza é um leopardo no escuro.

O MENINO

Cato a poesia
Como o menino
Que brinca com pedras no rio.
Na verdade,
É dentro de mim que o rio nasce.

A BARCA

Viajava pensando em ti.
Meu corpo te recordando
A ternura de suas mãos,
A suavidade do beijo.
Meu desejo, seu desejo.
Sim. Vieste comigo.
Deixei-te minhas mãos ao partir.
Assim que somos nós dois, únicos
Como uma barca noturna no mar de dezembro.

02-01-2005

JUNHO 1994

Numa tarde de Corpus Christi
Meus vizinhos burgueses
Estão trancados nas celas
De seus apartamentos.
Em outra cena, na rua melancólica,
Os mendigos
Na tarde que não se repetirá jamais
Batem nas latas vezias
A aquarela do Brasil.

Medalha Ação Cultural.

NA FOTOGRAFIA

Mulher morena
Segurando rosa
Reluz paixão
Na fotografia.

Olhos pretos,
Belas pernas,
Eu poderia
Ser amor
Nos seus
Cabelos negros.

Seu corpo sólido
Parece um lar,
Onde habita
Um espírito
Que quase adivinho.

Mirar-te faz-me
Um pouco
Sonhar um romance,
Embora as rosas
Hoje não mais
Comovem
Senão os cantores
Mais líricos
E Deus,
Que sempre
Sucumbirá
A uma mulher
Segurando rosas,
Fatal combinação
De charme irrevogável,
Perfume eterno,
Na delicada eternidade
Mesmo de uma fotografia
De fêmea desconhecida
Exalando primavera
De antiquada
Mas renitente
Poesia.

26/02/2002

SER NO TEMPO

Solidão. Gripe.
Frio. Música.
Poesia.
Assim a noite.

A certeza da incerteza,
A vida correndo no sangue,
A memória de outros dias
Nesse sábado do tempo.

Amanhã virá o café,
Com pão e manteiga, a missa
E as alegrias de um pobre.
Assim o domingo.

Entanto como homem
Procuro sustentar o solene
Nos acontecimentos banais.
Canto para não perecer.

31.07.2004

RESGATE

Resgatar certa maneira
De caminhar na chuva,
Olhar a chuva,
Sentir a chuva.
Um certo gosto sutil
De molhar-se, dar-se,
Perder-se na chuva.

Resgatar
A comunhão antiga
Que eu tinha,
Antes de conhecer
Os olhos ávidos,
Que nunca choram
Nem se consolam
Ao ver a chuva
Cair
Como uma benção
Sobre a terra.

LEOPOLDINA

Num leito de montanha
A cidade desperta
Seu leite, sino, sinais.
Nada acontece de mais,
Nem de menos.
A cidade é exata.
O dia passa brando
Como um suspiro.
O crepusculo é verde mata.
Poema, como te quero!
A noite, Nossa Senhora Leopoldina nos brinda suas luzes
(Vagalumes do seu véu.).
Assim em paz, quase sem pecados,
Vivemos e adormecemos
Nós, os que vivemos
Na cidade exata.
Leopoldina. Setembro, 2010.

AMIGOS

Marcelino Rodriguez

Amigos são estradas
Livres de sinais
Pedágios, impostos.
São sorrisos
Abertos no meio da noite.

Amigos são anjos
Revelando portais
Que separam humanos
E imortais.
Amigos são família.
São pátrias sem fronteiras.

Amigos são os outros
Que refletem
Nossa extensão de alegria,
que completam nossa esperança
De não perder a poesia
Dentro das dores.
Amigos
São braços.São olhos.

Amigos tornam possível
Que a vida siga adiante
Quando, sozinhos, não podemos mais.
Amigos são asas. São armas.

Sem amigos
Não seria viável
Essa lua na madrugada
Solitária, branca, persistente
A espera da aurora.

CANÇÃO PRA ADORMECER
Em fevereiro de 2006

Por que me queres tomar, canção,

Nesse dia tão triste, nessa magia obscura

Da minha travessia no século?

Para onde me queres levar

Se não vejo estradas, se não há prata

Para a fuga, nem braços acolhedores?

Queres salvar-me do deserto?

Como abrir as mentes, os olhos, os corações?

Como ressuscitar os sentimentos

Da tirania das máquinas?

Fazer a velha avó contar histórias

Perto da janela? Acender o fogo da lareira?

O fervor dos antigos patriotas?

O mistério doce das mulheres antigas

Que contemplo nas lápides dos cemitérios?

O comprimento cortês entre vizinhos?

Por que me queres tomar, canção?

Se tenho apenas as paredes, o silêncio e a televisão ligada

E os pensamentos circulares, as noticias circulares

E a previsibilidade

De que tenho que manter a guarda alta,

Esconder os pensamentos, os sentimentos,

Levar as paixões em fogo brando

Para não ser destruído?

Por que me queres, canção?

Por que me escolheste?

Se não posso construir,

Se não posso destruir,

Se não posso nada

Reduzido à misericórdia de Deus?

Por que me abençoas, canção,

Se vejo apenas o escuro?

Se vejo apenas o muro?

Se falo metáforas estranhas

E não há intérpretes mais?

Por que me tomas, canção?

Por que me arrebatas,

Se ninguém sintoniza a rádio

E falo sozinho

No país da eterna esperança?

Acordaremos um que seja dentre os mortos?

Ainda haverá náufragos conscientes?

Ou a água, o fogo, o ar e a terra foram fatais

E só sobramos nós? E só sobramos nós…

E só sobramos nós…

Deixa-me adormecer, canção!

Deixa-me adormecer.

Tenho amor demais para estar acordado,

Paixão demais para estar vivo,

Tanto quanto para morrer.

Deixa-me adormecer, canção !

Quem sabe amanhã me retornem os sonhos

E Deus troque-me a misericórdia pela benção.

NOTURNO DE SÁBADO

As pessoas se procuram
Mas nem sempre se encontram
Em sábados de intensa solidão.
Um anjo me vela com certeza,
Do céu me chama pelo nome,
Enquanto carros atravessam a ponte
Oposta ao cemitério vertical.
Cresci, entristeci, sou um homem.
As mulheres enterraram meu coração.
Uma canção estrangeira, uma cerveja preta
E a lembrança de Che me livram do suicídio.
Com certeza, e apesar de tudo, embora no silêncio,
Faço também parte da história, ainda que pela margem.

2001.

TANGO

Para hermanita Laura Venslavicius

Enquanto com a ternura ferida,
Meus pensamentos solitários, sangüíneos
Iam da Galicia a Havana,
Passando pela Argentina
Nas noites frias dos computadores,
Exilado das mãos humana nos cyber-cafes,
Recebendo dos jornais as mais sombrias noticias
Da terra – tua asa portenha me encontrava
Por esses dias que fugiam
Um após outro, como pássaros emigrantes.
Fizeste comigo a alada crônica da amizade,
Esse poema de força infinita.
Com teus passos, desde então vens
Andando comigo, enquanto minha viagem prossegue
Nos gelos silenciosos das rodoviárias,
Nas minhas buscas de acertar o alvo
A cada dia errante peregrino
Persisto, deixando nos sonhos noturnos
O único descanso , no coração a esperança
Que um dia minhas palavras encontrarão
Eco no mundo, assim que andaremos
Límpidos e puros
Numa imortal caminhada na Plaza de Maio,
Com a tarde serena de Buenos Aires
Ao odor de café que emanara´ das vitrines…
Um dia não mais haverá apenas chão, distancia, medo.
Um dia como crianças, nos veremos.
E do sudeste do Brasil, te saudo este tango profético!
E riremos juntos de Don Quixote, Don Juan e dos mitos melancólicos.
E retornarão os dias de ternura, rodeado de palomas.

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