MANHÃS ETERNAS

MANHÃS ETERNAS

Marcelino Rodriguez

Ainda a pouco deitado ao pé de mim, meu cão Buda estava, enquanto pela janela eu tenho primeiro o jardim, depois outras casas da cidade e mais as montanhas e enfim, o céu. Estava a refletir na singularidade da minha vida quando um beija flor entrou dentro de casa, o tempo suficiente para dar-me um bom dia divino e encher-me de esperança e força para o dia. Muitas vezes sinto como se o mundo fosse um grande cinema que Deus passa para mim, todos os dias. Talvez seja por isso que na maioria das vezes ou dos dias, estou de olhos brilhantes e surpresos assistindo o espetáculo da vida, porque viver é estar tomando um banho de amor. Porém, é preciso estar inocente, com fé e otimista, acreditando na sorte, assim como Buda agora que descansa descaradamente no meu colchão como se ele fosse meu dono e eu seu cozinheiro. Sei que o preguiçoso agora só levanta se for para comer ou para jogar um barro, coisa que ele não faz dentro de casa. Um gentleman, meu cão. Sim, as pessoas deveriam observar o mundo como uma obra de arte de Deus. A vida é um épico longo, eterno, com variações de gêneros dentro do mesmo longa. Deus, porém, nos deixa a escolha de mudarmos nosso próprio personagem. Vamos então, gente, um pouco de amor e grandeza, peloamordeDeus!

23/11/2010.
Trecho do livro “Diário de Um Buda”, inédito.
Direitos reservados.

AILA

AILA

Chegou a hora de falar de Aila, minha cadela marrom de olhos de papaleguas, aquele mesmo do desenho animado. De vez em quando eu e ela trocamos olhares desafiadores. Ela como algumas personagens femininas de Machado de Assis, tem olhos oblíquos e dissimulados. Dá mole que eu te fodo, parece que os olhos dela me dizem, ou então não tente me decifrar que sou mulher, portanto, sou selvagem e é melhor que você me espanque de vez em quando para a coisa não sair dos trilhos. Quando ela rosna no prato os machos saem acanhados e esbaforidos. Os olhos dela, se você a encarar, vão para a direita e para a esquerda, buscando esquemas mentais indecifráveis e diabólicos e quando param no centro para te fitar você já sabe que com ela nunca vai entender coisa alguma. Ela está perto de você e longe léguas dentro dela mesma, além. No fundo, tímida. Não gosta muito de mostrar seus reais sentimentos, mas você tem vontade de mata-la as vezes, devido a seus exageros femininos. Por que toda vez que saio de casa a vizinhança toda tem que saber, por que ela grita desesperada como uma mulher quando finge um orgasmo, levando meus nervos ao desespero e me deixando corado de vergonha. O exagero é tão grande que jovens viúvas perdem no enterro. Quando vou sair sou transformado em celebridade pela minha cadela. Adeus, discrição da minha vida. Um dia um rapaz parou o carro enquanto ela continuava o escândalo no portão. “olha, meu amigo. Aquela cachorra é sua? Acho que ela tá esganada no portão”. Não, amigo, é humor negro dela, sacanagem mesmo. Ele ri e vai embora. Para que se entenda como ela me leva ao céu e ao inferno em instantes, um dia eu limpei a casa com capricho e ia dar-me um justo relaxamento com uma cervejinha e uma lingüiça mista frita no capricho. Com uma ingenuidade de anjo pus um instante a lingüiça na varanda. A cena foi cinematográfica e poderia ser feita em camara lenta. Menos de um minuto e com a destreza de papaleguas Aila bateu com arte a minha lingüiça, no talento. Em segundos, sequer eu podia recuperar pois parece que ela triturou e engoliu na veloidade da luz. Fiquei possesso e nesse dia fiz valer meus direitos de homem e espanquei-lhe um tanto. Desisti da lingüiça e fui deitar, deprimido como um suicida. Depois que parei para pensar no pitoresco da situação, desatei a rir como um demônio na noite. Essa é Aila dos olhos de papaleguas, “dá mole que eu te fodo”.

14.01.2010.

Direitos reservados.

SIDARTA, O BRAVO

Sidarta é meu filhotinho. Um dia olhei Nick, Aila e Buda, que já são três cães maravilhosos e senti um aperto no coração, como uma mulher que quisesse ter mais um filho e achou que estava faltando mais um. Comecei a perguntar na cidade se alguém teria um filhote de cão para me arrumar. Algumas negativas depois e um dia, quando estava numa choperia falei como quem não quer nada ao garçom. Ele me disse que uma conhecida dele tinha um e queria dar. Com dois meses, Não perdi tempo e pedi para mim, passando meu telefone. Dias depois ele chegou trazido ao meu portão pela dona, que relutava em se despedir do cão, o que já estava me irritando. Sidarta era tão parecido com o Buda que de início até fiquei frustrado com a fotocópia. Ambos são branquinhos com pequenos detalhes amarrronzado nas costas. Meu filhotinho chegou manhoso, mimado, chorando e mijaudo a toa, assim como comendo tudo. Os primeiros dias dormia na sala comigo. Pulava as vezes para meu colchão. Depois, apesar da pena, me alarmei que precisava de um cão guerreiro, de garda e decidi que era hora dele aprender a dormir do lado de fora. Os três, quatro primeiros dias foram um inferno. Eu havia criado um monstro. Bastava ´por ele La fora e começava a choradeira insuportável; o curioso é que Sidarta deve ter um parentesco distante com os lobos e coiotes, pois ao invés de latir, ele uiva. Agudamente. E uivava sem compaixão do meu sono, nem da minha paciência. E não me envergonho de dizer que ele apanhou um bocado, inclusive com uns chutes na bunda. Trancava ele no escuro do banheiro. “Esse desgraçado vai ter que me obedecer”, pensava eu com fúria espanhola na madrugada. Também na hora da fome era um inferno, lá vinha aquele uivo agudo. Perdi a conta dos puta-que-pariu que soltei por causa dele. Depois de um certo tempo, porém, toda aquela pancadaria deu certo. Um dia, ele veio pertubar na porta e quando abri ele bateu em retirada, abanando o rabo como quem diz: “te peguei, babaca”. Pronto. Não pude deixar de dar uma risada. Estava no ´ponto. A particularidade mais engraçada do meu filhotinho é que ele é arrogante e autoriário, temerário apesar do tamanho. Ele te olha sempre com um ar desafiador de “qual é a sua”? Ele se acha o cara. É na maioria das vezes o primeiro que tenho que dar comida, para ter sossego. Pensei que meu cão vira-lata metido a Rotis Valis era um caso perdido, encaranhando e apanhando dos mais velhos, com estranho complexo de lobo, nas por duas vezes ele mostrou ser um cão muito especial de uma maneira marcante. Numa delas, nas festas de fim de ano, mais precisamente no ano novo, quando eu estava bastante abatido, tomando o resto do meu vinho doido para me embriagar, dormir, esquecer da vida. Não tinha forças sequer para dar-lhe a atenção que ele me cobrava. Vi seu olhar de compaixão sobre mim e chegou-se como nunca fizera, a aninhar-se entre minhas pernas. Ali, meu cão me amparava. Com o que restava de dignidade naquele momento destrutivo, dei-lhe meu olhar e meu afago de gratidão. Um outro momento clássico da personalidade singular do meu filhotinho foi um dia, quando o almoço estava já meio atrasado e pus a comida dele na vasilha de plástico que costumo dar ao Buda e pensei que ele vinha voraz, com tudo, quando derepente ele estacou diante da vasilha, me olhou com o olhar de quem diz? “Que porra é essa, seu babaca?”Curioso que eu quase puder ler a frase no seu olhar. Não comeu mesmo, enquanto eu não pus para ele na vasilha a qual ele já se acostumou a comer. Pensei definitivamente. “Está consumado”. Esse é o meu filhotinho. É o cão mais bravo dos quatro.

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EGOÍSMO: OBSTÁCULO MAIOR PARA A FELICIDADE.

Marcelino Rodriguez

Outro dia olhava meu cão Buda adormecido e fiquei preocupado com o nosso futuro. Tenho que ter uma rentabilidade boa, porque além dele, tenho mais três e eles comem muito. Inclusive o menorzinho, Sidarta, está em idade de crescimento. O Sidarta me diverte bastante porque ele é um vira-lata rasgado mais se comporta como se fosse um Rotis Valis. De vez em quando ele toma um sacode dos maiores, mas ele não desiste. Guerreiro, o pequeno. Mas como eu ia dizendo, ou melhor, ainda não havia falado diretamente, durante toda minha vida após descobrir o meu talento literário, topei com dois obstáculos tenebrosos que me deixaram em apuros vezes sem conta e ainda hoje: o egoísmo e a indiferença humana. Eu pensei que estaria salvo quando ficasse evidente que eu era um escritor razoável, a coisa ia fluindo de pessoa a pessoa, até que eu chegasse no Porto Seguro. De vez em quando, nas noites solitárias, quando lembro da minha ingenuidade, dou risadas como se fosse um demônio azul. A maioria das pessoas pouco estão se lixando para o que penso ou sinto, seja eu um Buda, um Anjo, um Jesus, nada disso importa. A não ser que tenha mídia. Ai a coisa estoura e vai eu de jatinho executivo pelo mundo afora. Mesmo que não tenha nada escrito no livro, mas se sair que sou um gênio na televisão, que é o deus da maioria da humanidade, a televisão, certo é que meus cães vão engordar maravilha e vou poder isolar-me definitivamente numa espécie de Neverland habitada somente por eles, os cães. Sim, as vezes me lembro daquele Argentino em Córdoba, intelectual assim como eu, solidário porque sabe que estamos em extinção, que me contou a história do menino grego. A história é assim:

0 menino pergunta:

__ Pai, porque na Grécia só tem sete sábios?

__ Porque a estupidez é infinita, meu filho.

Assim que, considerando que a vida é uma cadeia de interdependência, ignorar o talento alheio, a luz alheia, é cometer um crime contra a própria divindade que dota as pessoas de talentos e dons para fazer o todo da vida. Ao enfraquecer nosso próximo, menores e mais fracos ficamos nós, porque o crescimento de um leva ao crescimento de outro. O egoísmo é a espécie de estupidez mais esquálida e inacreditável, porque quanto menos uma pessoa dá e troca com a vida, menos ela tem. Deixei muitas vezes de fazer belos trabalhos, atos edificantes, e só Deus sabe mais quantos desconfortos, porque o egoísmo do próximo me deixou paralisado e indefeso. Recomendo que as pessoas que tem dificuldades de compartilhar que reservem um tempo do dia, nem que seja cinco minutos, para fazer uma prece que seja para outras pessoas, que não precisam nem ser de seu círculo imediato de relações; isso feito com certa freqüência cura completamente a tendência ao egoísmo. Valorizar o bem e o bom das outras pessoas é o mais alto que há em refinamento humano. Espero que eu não tenha que pedir patrocínio dos fabricantes de ração para alimentar meus cães ou fazer um deles de garoto propaganda. Não quero misturar meus bichinhos nesse mercado humano predatório e promiscuo, onde não existe amor nem estética. Sim, num país de cento e noventa milhões de habitantes, eu fui um dos dez (de dezena) que leu a república de Platão e deve ser que falo grego.

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3 comentários em “MANHÃS ETERNAS

  1. Se o unico sentimento que existisse no coração de cada um de nos fosse o amor, com certeza seria-mos seres humanos melhores e mais agraciados. Buda, mesmo um mito, inerte, é um sábio, e sábio é aquele que aprecia seus ensinamentos.
    Voce é um sábio meu querido. Parabéns.
    bjus

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  2. Muito interessante sua forma utópica de ver os fatos. Gostei das pequenas quebras de sequência em algumas frases. Não foi exagerado e nem muito pouco, foi tudo na medida. A forma como escreveu – e descreveu – e utilizou os vocábulos lhe conferiu um ar meio “espírita”. Posso estar enganado, é claro, mas foi o que primeiro me veio em mente.
    Parabéns, achei bem legal.

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  3. Bom dia Marcel,
    estava agora me deliciando relendo os trechos do teu próximo livro,
    Maravilhoso te ler!
    Textos primorosos, profundo de grande sabedoria como todos que tu escreves. Aplausos e muitos parabéns! Admiro tua sabedoria.
    Pode ter certeza que esse livro será muito bem sucedido e muito bem aceito.
    Vindo de você só poderá sair mais uma grande obra.
    PS: JÁ PODE RESERVAR O MEU!
    Beijos no coração

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