CANÇÃO PARA ADORMECER

 

TRECHO DO NOVO LIVRO

 

Depois que Sara deixou-me de vez, alguns dias depois mergulhei numa espécie de estado vegetativo. Comecei novamente o distúrbio alimentar e entrei em comunidades de meninas anoréxicas. Consequentemente a não me alimentar, perdi o resto do equilíbrio. De repente chorava na rua, dentro de ônibus, do nada. O mundo ficou opaco, distante, amorfo. Atormentava-me as lembranças eróticas. Fumava e bebia mais que o razoável e minhas costelas começavam a aparecer vergonhosamente. O rosto fundo, cavado. Tinha pressentimentos de morte. Tomava muito lexotan, que pedia a uma amiga para comprar. Não via, nem queria mais graça na vida. Um dia, fui surpreendido com uma ligação de Miguel.

— Alô?

— Quem você ta pensando que é, meu caro, com suas criações de demônios artificiais?  Ta me dando pesadelos aqui velhinho, Se você continuar essa autopiedade logo logo você vai ver um demônio de verdade e posso te garantir que você não vai se divertir nem um pouco, ok?

— Como assim?

— Pega seu caderno e anota uma ordem que vou te dar, anda que tenho que ir dar minha aula de inglês.

— Perai…

— Pegou?

— Sim.

— A partir de hoje quero que você anote suas vinte e quatro horas do dia, tudo que estiver fazendo, tim tim por tim tim, escreva no caderno e me mande a cópia por email. Se não fizer, tiro seu nome do meu círculo de amigos e corto qualquer possibilidade de você ser ordenado cavaleiro. Não estou brincando. Espero o email amanha.

Desligou.

Tanto fiquei comovido quanto surpreso de como ele pode saber,em São José DosCampos, o que estava acontecendo comigo, já que eu não comentava minha dor com ninguém; era tudo dentro da minha alma e em minha casa solitária. Eu mal falava com quem quer que fosse nesse período. Como, porém, tinha-lhe muito respeito espiritual e humano, resolvi obedecer sem questionamentos. Durante quase um mês , meus emails e anotações eram desse tipo “Acordei, tomei um copo de leite, um lexotan  e voltei a dormir”; “Acordei, lavei a louça, comi um pedaço de pão e voltei a dormir”; “Acordei e sai para tomar cerveja”; “Acordei e fui pagar a luz e o gás, tomei cerveja e dormi”, etc. Ele não comentava nada. Escrever-lhe e anotar no caderno essas coisas que eu fazia,  e eram só essas mesmo, pois estava com a atenção e a vontade comprometidas. Após uns quinze dias, começou uma reação maior na vontade “Acordei, lavei a louça, tomei um caldo de feijão, li um pouco da Bíblia”; “Acordei, pratiquei a oração centrante, fui no mercado. Entrei num site de estudantes medievais. Dormi”; até que aos poucos meus dias foram, embora com uma tristeza e um luto que em parte trago até hoje, voltando a ter vinte e quatro horas. Tenho certeza que Miguel salvou-me a vida. Meu último contato com ele foi mandar relatório do que experimentei no Dia de Reis, missa que fora assistir por ordem dele. Depois disso, nunca mais respondeu nem email, nem achei-o por telefone e saiu da minha rede, menos, curiosamente, do messenger. Resolvi respeitar seu silêncio, mas antes mandei-lhe um email malcriado “andando ele se foder, que tava muito metido pra meu gosto”. Imagino que ele deva ter rido. Hoje compreendo que ele foi para mim como o Anjo para Tobias. Seu último sinal foi salvar-me a vida e abandonar-me após a missa de Reis. Creio que esse irmão de alma, por hora,aos cuidados tradicionais da Santa Madre Igreja.

 

 

 

 

 

 

 

CANÇÃO PRA ADORMECER

Marcelino Rodriguez

Por que me queres tomar, canção, Nesse dia tão triste, nessa magia obscura Da minha travessia no século? Para onde me queres levar Se não vejo estradas, se não há prata Para a fuga, nem braços acolhedores? Queres salvar-me do deserto? Como abrir as mentes, os olhos, os corações? Como ressuscitar os sentimentos Da tirania das máquinas? Fazer a velha avó contar histórias Perto da janela? Acender o fogo da lareira? O fervor dos antigos patriotas? O mistério doce das mulheres antigas Que contemplo nas lápides dos cemitérios? O comprimento cortês entre vizinhos? Por que me queres tomar, canção? Se tenho apenas as paredes, o silêncio e a televisão ligada E os pensamentos circulares , as noticias circulares E a previsibilidade De que tenho que manter a guarda alta, Esconder os pensamentos, os sentimentos, Levar as paixões em fogo brando Para não ser destruído? Por que me queres, canção? Por que me escolheste? Se não posso construir, Se não posso destruir, Se não posso nada Reduzido á misericórdia de Deus? Por que me abençoas, canção, Se vejo apenas o escuro? Se vejo apenas o muro? Se falo metáforas estranhas E não há intérpretes mais? Por que me tomas, canção? Por que me arrebatas, Se ninguém sintoniza a rádio E falo sozinho No país da eterna esperança? Acordaremos um que seja dentre os mortos? Ainda haverá náufragos conscientes? Ou a água, o fogo, o ar e a terra foram fatais E só sobramos nós? E só sobramos nós… E só sobramos nós… Deixa-me adormecer, canção! Deixa-me adormecer. Tenho amor demais para estar acordado, Paixão demais para estar vivo, Tanto quanto para morrer. Deixa-me adormecer, canção ! Quem sabe amanhã me retornem os sonhos E Deus troque-me a misericórdia pela benção. 29.12.2005-12-29 Direitos Reservados

ETERNO MENINO

Marcelino Rodriguez

Cato a poesia
como um menino
Que brinca com pedras no rio

Na verdade, é dentro de mim que o rio nasce
é dentro de mim que o rio nasce
O rio nasce

Como o menino que brinca
A poesia nasce,
A poesia nasce,
Nasce da pedra,
Nasce do rio,
Nasce do menino.

Na verdade, é dentro de mim que o rio nasce
È dentro de mim que o rio nasce
Que o rio nasce.

Letra de música, direitos reservados (Do livro Juvenília).

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