TRECHO DO LIVRO AMERICA, PAIXÃO IMORTAL, FINAL CONTRA O BOTAFOGO

FINAL DA TAÇA GUANABARA CONTRA O BOTAFOGO, GUERRA DAS TORCIDAS  E O DESASTRE DA ARBITRAGEM

Marcelino Rodriguez (trecho de America, Paixão Imortal)

Os dias que antecederam a final contra o Botafogo foram de tensão e ansiedade nas redes sociais. Durante algumas madrugadas eu e alguns companheiros rubros defendíamos nossa comunidade de ataque de torcedores alvinegros. Havia muitas provocações de ambas as partes e, sem grandes ódios, acabou que essa guerra de torcidas teve seu lado divertido. Inventei um fake com a cara do Bart Simpson e ficava de plantão na madrugada; havia também um outro companheiro fantasiado de Bart e assim protegíamos nossa comunidade da cachorrada. Inventei que faria um despacho em frente a sede e alguns botafoguenses ficaram apavorados e tenho motivos de sobras para acreditar que alguns deles perderam o sono, ficando de plantão a espera da minha receita de Pato Alvinegro Despenado, com os ingredientes mais inusitados como penas legítimas de Donald da Disneylândia e fio legitimo das barbas de Fidel. Até de macumbeiro filho da puta me chamaram. Devo admitir que exaltado nas cervejas da madrugada e na possibilidade de ser campeão em cima dos alvinegros, irritei-os um bocado. E não foi ilusão minha talvez quando no segundo tempo integrantes da torcida do Botafogo fizeram um cartaz enorme ironizando minha derrota e mostrando de frente para onde estávamos. Eu era um predestinado naquela final.

Antes do jogo, a torcida do America marcou num bar tradicional perto do estádio e fui o primeiro a chegar, antes das quatorze horas. Fui de taxi porque por mais fanatismo que tenha, não ia a muito tempo aos estádios e fiquei temeroso de atravessar sozinho a Quinta Da Boa Vista. Os seres humanos e torcedores  dessa época tecnológica não possuem o humor de Nelson Rodriguez e não iam entender talvez minhas pilhérias literárias. Já sabia que nesse dia o chopp seria minha salvação e depois do terceiro começaram a chegar companheiros da comunidade. Porém, logo a seguir começaram a chegar muitos alvinegros; nunca vi tanto botafoguense na minha vida. Acredito que foram a final em que mais alvinegros houveram em todos os tempos. E as duas torcidas, gozações e gritos de guerra  a parte, se confraternizaram. Todo rival carioca nos admira e um deles, inclusive, ao ver a paixão que estava nossa torcida, disse de olhos marejados que não importava quem fosse o campeão, estaríamos juntos.

As horas iam passando e as emoções transbordavam com as cores lindas desse belo clássico. Algo mais carioca que um America e Botafogo na final? Então, num rompante de chopps bati uma foto onde um alvinegro beijava nosso escudo na minha  camisa  e eu o deles. Era o êxtase. Os fanáticos se compreendem. Eles estavam numa proporção de três para um o tempo todo, porém foram surpreendidos com a estratégia que a torcida do America arrumou para surpreende-los. Milhares de buzinas. O Buzinaço. Que tornavam nossa voz absolutamente onipresente no estádio, bastando assim nossa vontade. Eram gritos de sangue e três buzinaços. Quem seria capaz de esquecer, quem lá esteve, essa final antológica? Durante o primeiro tempo, mandamos nas arquibancadas com sobras, quando éramos vinte mil contra quarenta deles! Após o gol de Robert, era quase certo que o título era nosso, embora era estranho o juiz não coibir a violência com que o Botafogo, descontrolado, jogava. O que me fez, perplexo, levar as mãos a cabeça sem entender porque o juiz não expulsava ninguém. Até que veio um dos pênaltis mais escandalosos  a nosso favor, não dado pelo juiz e isso desestabilizou nosso time e manchou a final. Estava claro que teríamos que jogar contra o juiz também; depois disso, todo mundo sabe que os alvinegros ganharam de três a um, embora nosso time fosse melhor. Na saída do estádio, o clima amistoso das torcidas haviam acabado e via meus amigos rubros tristes, indignados, e pude evitar algumas desavenças com alvinegros que poderiam dar consequências imprevisíveis. Depois que vi o quanto fomos prejudicados, IMENSAMENTE, meu juízo havia voltado. Tirei a camisa para retornar para casa sozinho, triste e humilhado apenas com a bandana na cabeça. Ainda bati uma foto com um ator de televisão alvinegro e terminei a noite chorando sozinho num bar em São Cristovão. O sonho chegara ao fim.

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