ALGUMA COISA ACONTECE EM SÃO PAULO

Marcelino Rodriguez

Na rodoviária do Tiete, sou surpreendido por uma oriental que, a princípio, pareceu-me chinesa.

– Será que aqueles preços estão certos, como deve ser essa porção?

Era uma mulher bonita de seus vinte e cinco anos, que ao falar o português, mostrou uma abertura que nunca tinha visto nos orientais. Os do Rio de Janeiro, pelo menos, não parecem nem um pouco interessados em aculturar-se. A pergunta foi que ambos íamos fazer uma boquinha de massas num desses restaurantes de rodoviária que costuma nos cobrar os olhos da cara. Depois disso, procurei servi-la da melhor maneira possível e cheguei ao cúmulo de perguntar a uma moça que estava comendo quanto ela pagara pelo prato e se a porção era meia ou inteira. Por causa das mulheres, um homem é capaz até de perder a educação, as calças, o bom senso, até a vida.

Eu e minha súbita companheira oriental íamos nos informando do que havia para misturar no macarrão e ela com o cardápio nas mãos ia dizendo o que tinha. Para mim, que já estava pensando em aprender Mandarim para comprar pastel ou quinquilharias de um e noventa e nove, foi um alívio saber que pelo menos uma parte pequena das pessoas de olhos puxados estão dispostas a se comunicar com estranhos. A experiência mostrou-me que os humanos nem sempre são hospitaleiros com “estranhos”, talvez seja por isso que todos os profetas quase vieram de fora, para que as pessoas abrissem novos horizontes de conhecimento.

Comendo já, eu observava “a deselegância discreta” de suas meninas e se vê logo o cosmopolitismo imenso da cidade. Meninas de todas as cores e tipos, da Gabriela que sentou de saias curtas a gringa de cara enfezada. Fiz uma oração silenciosa pra gringa que devia estar com problemas. São Paulo é imenso e se não houvesse a ternura humana, ele se explodiria no caos. No metrô, voltando de Jabaquara, fui surpreendido pela preocupação grande de um menino de explicar-me certo por onde eu deveria seguir. Claro que vi pessoas com camisas do Corinthians, do São Paulo. Também um gaúcho me alertando que eu posso ter dado minha moeda para um velho aproveitador, e abriu-se de me contar sua vida de ex-cracudo, ex-corno, ex-tudo, dando-me um fique com Deus ao chegar seu ônibus.

E para quem não sabe, São Paulo tem praia, mas não vou contar tudo, porque dizem que as pessoas inteligentes escondem o melhor dos profanos da sensibilidade.

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