O PRIMEIRO MILHÃO DE UM HOMEM, PRÉ VENDA MERCADO MUNDIAL

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O PRIMEIRO MILHÃO DE UM HOMEM

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O PRIMEIRO MILHÃO DE UM HOMEM

Marcelino Rodriguez

Naquele tempo que ganhei meu primeiro milhão, tudo era melhor, mais bonito, mais fácil. Eu vivia mais no céu do que na terra. Trocava segredos com anjos insuspeitos.

Assombrosamente bonito, poderia faturar milhões em comerciais de margarina e família feliz. Um pequeno Ás.

Ainda tinha a idade em que minha mãe me levava pela mão, de calças curtas; ia com ela pela cidade do Rio de Janeiro. Tudo era mágico. Um cheiro de fumaça aromática subia pela calçada, perto da loja de sapatos que saímos. Seria sexta-feira? Seria perto do Natal? Meu Deus, os anos oitenta ainda nem tinham chegado. Mammas e Papas faziam sucesso. Uma negra gritava, abanando o carvão.

— Milho verde. Olha o milhão.

Minha mãe teve uma inspiração divina naquele momento.

— Quer um milhão, filho?

— Quero.

Enrolado em sua própria casca, eu ia feliz com meu primeiro milhão. Eu ainda não tinha nove anos de idade. Já era uma estrela. Nasci predestinado aos grandes momentos.

05.01.2017

O MISTÉRIO DA CHAPECOENSE

O MISTÉRIO DA CHAPECOENSE

Marcelino Rodriguez

Nós vivemos num mundo que, basicamente, nos vende mentiras. Quem já saiu da idade do Chapeuzinho Vermelho e observou a humanidade filosoficamente, sabe que deve ter pouca gente no céu. Pouquíssimas. Nem nas irmandades, nem nas igrejas, nem em lugar nenhum, achamos facilmente quem nos traga um pouco de paz, alegria e felicidade. Schopenhauer estava certo ao dizer que para não nos sentirmos sozinhos e miseráveis, deveríamos recorrer a bondade dos cães.

Eu me sinto no inferno ao saber que de cada três pessoas no país em que vivo, Brasil, é quase um milagre achar alguém que compreenda as regras do sistema solar, ou que tenha sido educado para respeitar os livros como coisa sagrada. Daqui há pouco terei 80.000 livros com minhas genialidades escritas e ninguém vai saber que sou um Gênio Incompreendido. Hoje em dia, a grande arte humana é nos desprezarmos em troca de alguns cliques superficiais no celular. Parei de namorar por protesto, porque as mulheres andaram abusando sexualmente de mim, e depois me deixaram sozinho quando descobriram que eu não estava na lista dos mais vendidos. A gente já não sabe mais quem é polícia, quem é ladrão. Tem dias que olho para o céu e fico me perguntando quando é que os anjos chegam para baixar o cacete e limpar a área. Não tenho mais nenhum paciência com egos falantes, nem com o meu.

O grande caso é que no fim de semana, eu pensei, no meio dos meus infernos: “Bem, essa semana tem o jogo da Chapecoense”. Fora um dinheiro que me deviam e demoravam a pagar, não havia nenhum outro sinal de que eu pudesse ter uma felicidade qualquer. A Chapecoense era minha única perspectiva. Pois bem. Meio de madrugada e sem acreditar, fiquei sabendo que um avião da Chapecoense tinha caído com jovens e pensei que era o sub vinte, algo assim, posto que se falava em muitos jovens mortos. Eu não imaginei que aqueles jovens eram os que eu iria acompanhar durante a semana.

Os únicos seres que sinalizavam uma alegria diferente na minha semana. Os meninos da Chape não eram zumbis. E Mário Sérgio, um grande “Marginal” do futebol estava com eles. Era um Vilão querido para mim. Lembro-me vagamente até que ele já deu uns tiros nos seus bons tempos de jogador , tiros para o alto ou coisa parecida. Tinha personalidade. Coisa difícil de se encontrar hoje. Todos sabem que sou torcedor do América e esse é meu único time, o segundo de todos. Hoje, o meu segundo time no Brasil é a Chapecoense. Morreu no alto, morreu grande, sem nunca cair. E quando caiu na morte, o mundo levantou. A Chape permitiu que o planeta respirasse por instantes preciosos o esquecido senso de unidade de todos nós, pobres mortais.

No céu, Mario Sérgio deve estar dando susto nos anjos. O Mistério da Chapecoense, dessa equipe em particular, pertence a simpatia mágica dos predestinados. Vá com Deus, equipe Chapecoense. Por breves dias, talvez, você uniu os corações do mundo, tão mesquinhos, na maioria das vezes. A morte de Herói é para poucos.

01.12.2016america paixao imortal 11

A MULHER DE PILATOS

A MULHER DE PILATOS
Marcelino Rodriguez
E, estando ele assentado no tribunal, sua mulher mandou-lhe dizer: Não entres na questão desse justo, porque num sonho muito sofri por causa dele.
A Bíblia é um livro cheio de segredos perturbadores. A mulher de Pôncio Pilatos foi avisada em sonhos que muito sofreria por causa de Jesus, o justo que estava sendo condenado. Porém, em vão avisou ao marido, que prosseguiu indiferente ao presságio da mulher, seguindo adiante  o julgamento  em que a tola multidão preferiu soltar Barrabás ao Messias, mostrando que as escolhas da maioria nem sempre são sensatas.
O que teria sido do mundo se Pilatos tivesse ouvido a mulher e mudado de ideia, livrando o salvador de tão covarde condenação? O fato é que talvez Deus tivesse dado essa pequena chance aos filhos de Adão, vendo se sensibilizaria ao juiz.
Só por conta de não ter ouvido a mulher, Pilatos já não pode ser considerado inocente. Ele foi avisado.
11.11.2016

OS ESCRITORES SÃO MESTRES DA CULTURA

Marcelino Rodriguez

Comemorou-se ontem o dia do escritor, nesse país de vários tipos de analfabetismos.
Tem pessoas que pensam que só existe o analfabetismo das letras. Que nada!
Existe o analfabetismo espiritual, que engloba quase noventa por cento da
humanidade. Quem foi que já aprendeu a amar ao próximo e tratar os outros como gostaria de ser tratado? Na minha experiência pessoal, vivo tomando sustos e outro dia perguntei a um amigo que também é amigo
dos livros (todo sábio lê muito) se era só eu que tinha a impressão que
os demônios da imbecilidade estavam governando a massa humana. Para minha surpresa, o amigo disse que tinha certeza disso.
Graças que não sou o único a perceber a insanidade geral.
Existe um outro analfabetismo básico no Brasil que é o analfabetismo literário. Os brasileiros não conhecem literatura nem de dentro, nem de fora. O ensino que é dado nas escolas não formam leitores e ninguém protesta contra isso, o que é outro tipo de analfabetismo: o civil. Claro que um povo que não conhece literatura e não evolui a mente para os conceitos universais, vai acreditar em qualquer conta de vigário ou vigarista. Perto do apocalipse, os anjos vão perguntar quantos poemas uma alma conhece. Menos de dez e eles dirão, abaixo, abaixo, sua sensibilidade tá muito pequena pras altas esferas. Aquilo que é divino não suporta mediocridade.
O engraçado, todavia, é quando um sujeito cidadão sem literatura quer ensinar ética, filosofia ou metafísica para um escritor que leu a história de todas as doutrinas que cabe na mente de um ingênuo. Dá vontade de perguntar qual dos oito volumes do Otto Maria Carpeaux ele leu. O Brasileiro ainda não sabe que os principais mestres de todas as culturas são os poetas e escritores.
Essa crônica é apenas um serviço de utilidade pública para os desavisados, que de vez em quando vem me ensinar filosofia da terceira dimensão ou sabedoria rudimentar. Os mais evoluídos do espírito humano são aqueles e aquelas que tem os talentos divinos. Feliz dia do escritor, que já passou foi tempo, porque tudo hoje é veloz pra baixo.

26.07.2016.