O MISTÉRIO DA CHAPECOENSE

O MISTÉRIO DA CHAPECOENSE

Marcelino Rodriguez

Nós vivemos num mundo que, basicamente, nos vende mentiras. Quem já saiu da idade do Chapeuzinho Vermelho e observou a humanidade filosoficamente, sabe que deve ter pouca gente no céu. Pouquíssimas. Nem nas irmandades, nem nas igrejas, nem em lugar nenhum, achamos facilmente quem nos traga um pouco de paz, alegria e felicidade. Schopenhauer estava certo ao dizer que para não nos sentirmos sozinhos e miseráveis, deveríamos recorrer a bondade dos cães.

Eu me sinto no inferno ao saber que de cada três pessoas no país em que vivo, Brasil, é quase um milagre achar alguém que compreenda as regras do sistema solar, ou que tenha sido educado para respeitar os livros como coisa sagrada. Daqui há pouco terei 80.000 livros com minhas genialidades escritas e ninguém vai saber que sou um Gênio Incompreendido. Hoje em dia, a grande arte humana é nos desprezarmos em troca de alguns cliques superficiais no celular. Parei de namorar por protesto, porque as mulheres andaram abusando sexualmente de mim, e depois me deixaram sozinho quando descobriram que eu não estava na lista dos mais vendidos. A gente já não sabe mais quem é polícia, quem é ladrão. Tem dias que olho para o céu e fico me perguntando quando é que os anjos chegam para baixar o cacete e limpar a área. Não tenho mais nenhum paciência com egos falantes, nem com o meu.

O grande caso é que no fim de semana, eu pensei, no meio dos meus infernos: “Bem, essa semana tem o jogo da Chapecoense”. Fora um dinheiro que me deviam e demoravam a pagar, não havia nenhum outro sinal de que eu pudesse ter uma felicidade qualquer. A Chapecoense era minha única perspectiva. Pois bem. Meio de madrugada e sem acreditar, fiquei sabendo que um avião da Chapecoense tinha caído com jovens e pensei que era o sub vinte, algo assim, posto que se falava em muitos jovens mortos. Eu não imaginei que aqueles jovens eram os que eu iria acompanhar durante a semana.

Os únicos seres que sinalizavam uma alegria diferente na minha semana. Os meninos da Chape não eram zumbis. E Mário Sérgio, um grande “Marginal” do futebol estava com eles. Era um Vilão querido para mim. Lembro-me vagamente até que ele já deu uns tiros nos seus bons tempos de jogador , tiros para o alto ou coisa parecida. Tinha personalidade. Coisa difícil de se encontrar hoje. Todos sabem que sou torcedor do América e esse é meu único time, o segundo de todos. Hoje, o meu segundo time no Brasil é a Chapecoense. Morreu no alto, morreu grande, sem nunca cair. E quando caiu na morte, o mundo levantou. A Chape permitiu que o planeta respirasse por instantes preciosos o esquecido senso de unidade de todos nós, pobres mortais.

No céu, Mario Sérgio deve estar dando susto nos anjos. O Mistério da Chapecoense, dessa equipe em particular, pertence a simpatia mágica dos predestinados. Vá com Deus, equipe Chapecoense. Por breves dias, talvez, você uniu os corações do mundo, tão mesquinhos, na maioria das vezes. A morte de Herói é para poucos.

01.12.2016america paixao imortal 11

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OS ESCRITORES SÃO MESTRES DA CULTURA

Marcelino Rodriguez

Comemorou-se ontem o dia do escritor, nesse país de vários tipos de analfabetismos.
Tem pessoas que pensam que só existe o analfabetismo das letras. Que nada!
Existe o analfabetismo espiritual, que engloba quase noventa por cento da
humanidade. Quem foi que já aprendeu a amar ao próximo e tratar os outros como gostaria de ser tratado? Na minha experiência pessoal, vivo tomando sustos e outro dia perguntei a um amigo que também é amigo
dos livros (todo sábio lê muito) se era só eu que tinha a impressão que
os demônios da imbecilidade estavam governando a massa humana. Para minha surpresa, o amigo disse que tinha certeza disso.
Graças que não sou o único a perceber a insanidade geral.
Existe um outro analfabetismo básico no Brasil que é o analfabetismo literário. Os brasileiros não conhecem literatura nem de dentro, nem de fora. O ensino que é dado nas escolas não formam leitores e ninguém protesta contra isso, o que é outro tipo de analfabetismo: o civil. Claro que um povo que não conhece literatura e não evolui a mente para os conceitos universais, vai acreditar em qualquer conta de vigário ou vigarista. Perto do apocalipse, os anjos vão perguntar quantos poemas uma alma conhece. Menos de dez e eles dirão, abaixo, abaixo, sua sensibilidade tá muito pequena pras altas esferas. Aquilo que é divino não suporta mediocridade.
O engraçado, todavia, é quando um sujeito cidadão sem literatura quer ensinar ética, filosofia ou metafísica para um escritor que leu a história de todas as doutrinas que cabe na mente de um ingênuo. Dá vontade de perguntar qual dos oito volumes do Otto Maria Carpeaux ele leu. O Brasileiro ainda não sabe que os principais mestres de todas as culturas são os poetas e escritores.
Essa crônica é apenas um serviço de utilidade pública para os desavisados, que de vez em quando vem me ensinar filosofia da terceira dimensão ou sabedoria rudimentar. Os mais evoluídos do espírito humano são aqueles e aquelas que tem os talentos divinos. Feliz dia do escritor, que já passou foi tempo, porque tudo hoje é veloz pra baixo.

26.07.2016.

ENTREVISTA SOBRE O NOVO LIVRO AO BLOG DO MÚSICO LUIS DOMINGUES

1) Em todos os seu livros anteriores, é nítida a sua preocupação com a questão cultural no Brasil. Nesse novo trabalho, isso tornou-se ainda mais incisivo?

Acredito que sim, que fiz uma síntese ao máximo de contundência que pude sem ser deselegante. Várias vezes,  em minhas angústias solitárias pelas madrugadas pelas cidades do Brasil, peguei-me com a certeza de que se algumas coisas estivessem em ordem e em dia nas minhas questões pessoais, já teria deixado o campo de batalha que é a vida inteligente por aqui. Porém, uma vez que não é o caso e ainda tenho algumas amarras praticas, resolvi apontar logo o dedo de vez na ferida e,  se der, me livrar do assunto, uma vez que minha parte para a pátria considero feita e muito bem feita. Agora se vão dar ouvidos ou importância ao que falei, veremos. Espero encontrar mais cidadãos, (incrível!), que esteja incomodado de ser esse que estamos um dos  países com os piores índices de leitores no mundo e, claro, um dos mais altos em criminalidade, corrupção, descasos, absurdos, etc. – se eu encontrar meia dúzia de pessoas sérias que ainda acreditam que através da cultura a humanidade é viável por aqui, o livro terá encontrado sua missão.

2) Sua decepção com a falta de costume do brasileiro, em ler um livro, já lhe causou a vontade de parar de escrever?

Essa coisa de o brasileiro não ler, nada tem com o Brasileiro em si. Não é genético. Isso é um grave problema de educação. Gravíssimo.
Em que difere o cérebro de um Sueco, Uruguaio, Argentino, Norueguês, Cubano ou Chileno do brasileiro Ler, como quase tudo, é uma questão de educação. Como o brasileiro tem baixa educação, porque não lê, logo, ele não lê porque não tem educação para isso. Educação se faz com livros. O que tem que se fazer é mudar a pedagogia para formar leitores e mentes sensíveis, interessantes. O que traz qualidade de vida não são paisagens, banquetes, piscinas, eventos e palácios e sim, gente inteligente, produtiva e elegante. Essas no país se conta a dedos.
A questão é se os brasileiros vão continuar aceitando passivamente ser um país sem leitores. Meu livro questiona é isso e, conseqüentemente, desinformado e inculto. Quanto a parar de escrever, acho que a vocação pode ser que fale mais alto. Porém, como preciso sobreviver e livro é o que sei fazer por hora, tenho que fazer. Tem muita coisa com certeza que já não faço mais por falta de estímulo e pelo choque de realidade. Antes eu elogiava logo as cidades que chegava; hoje, espero para ver como são as coisas. Já fiz poemas belíssimos para gente e lugares que no final me desiludiram. Enfim, me empolgo menos hoje e vou mais pelos fatos. E ainda consigo ser generoso. Sinal que nem tudo se perdeu em mim.

3) Como enxerga a recente onda de manifestações no país, levando em conta que a inteligência emocional é fraca, devido ao baixo nível cultural? E Indo além: Quais perigos corremos com uma possível manipulação perpetrada justamente por pessoas que sabem dessa fraqueza cultural?

Embora o povo seja vulnerável a manipulações e sempre foi, com relação as manifestações , elas se devem a uma corrupção generalizada no sistema de um modo geral e não apenas na política. Nesse plano, eu acho que houve uma mudança. Dificilmente os reconhecidamente maus políticos vão se reeleger facilmente; por outro lado, na parte da cultura a manipulação ainda é bem possível , porque trata-se de uma informação mais sofisticada. O povo não percebeu ainda que lhe foi tirado o direito a ouvir e ver coisas de qualidade. Ele só percebeu que existe dinheiro para estádios e que os políticos que fazem muito pouco andam com vidas palacianas. Da minha parte, e espero que as pessoas de bem ajudem , porque no Brasil temos o “fogo amigo” e a “omissão” das pessoas brigarem pelo “espaço”. Uma nação evoluída promove o bem do outro, porque o bem do outro   é um bem comum. Aqui o cidadão espera que “alguém” faça alguma coisa, como se as coisas não precisassem de nossa atitude para acontecer. È a tal da infantilidade mental.

Me interessa que a população escute Fagner, Zé Ramalho  e não Zulé Padodele. Um artista tem que ter uma mensagem, de preferência inteligente e inteligível, isso é básico em qualquer arte. Os intelectuais da atualidade são de fazer chorar um macaco.

Daqui a pouco o cara vai lançar um livro em branco e dará entrevistas como se fosse um gênio. Ou seja, em termos culturais estamos em plena era da contra-informação. Já na politica propriamente, os elegíveis, , ficou ruim para eles. Ou fazem um bom trabalho ou correm literalmente, riscos de várias ordens. Recentemente morreu Ledo ivo e parece que não morreu ninguém. Era simplesmente um dos maiores poetas do Brasil dos últimos quarenta anos. Se morre um gênio do pagode, a propaganda ia fazer chorar as gentes e haveria luto de três dias.

4) O mercado editorial é (a meu ver), igual, ipsis litteris ao musical, e também ao cinematográfico, só para citar três pólos da difusão cultural. Em sua opinião, há alguma esperança de quebra dessa estrutura viciada, e em sendo afirmativo, nesse caso, a Internet é uma esperança de liberdade criativa e democrática?

Luis, todo mercado público ou privado hoje  sabemos que são democráticos entre aspas. Esse é um dos motivos da grave crise social , que não é apenas política, mas de representatividade da pessoa humana. Se não houver uma reflexão profunda e uma generosidade em grande escala, chegaremos no nível final do pacto civilizatório que falo no meu livro e que aqui no Brasil ainda não é algo bem sedimentado.

Quanto a internet, ela ainda não tem a força da televisão! Existe uma grande massa de pessoas que ainda não perceberam a internet, muitos nem a usam; como disse lá atrás, em questões políticas a internet tem força, culturalmente não.

As estruturas viciadas e são muitas, porém, não vão durar para sempre. O que temos que pensar são novas maneiras de chegar ao público sem ser a televisão. Talvez daqui a uns dez anos a internet já seja o grande canal de informação, porém será que a sociedade terá ainda interesses comuns? Ou teremos tribos? Enfim, meu caro, o que podemos perceber é que sabemos que estamos indo para um outro ponto, mas não sabemos bem qual será.

Hoje  porém, a grande formadora de astral e de opinião é a televisão
que deveria ter um bom senso maior na sua programação.

Tomara que ainda dê tempo. Imagine o jovem na escola aprendendo algo sutil como Machado De Assis e ai chega em casa e se depara com os sensacionalistas do cara que foi degolado e por ai vai.

Vivemos como já disse, uma crise de sentido e uma de estética.

Está na hora dos intelectuais terem espaço de verdade no país.

Ou eles terão que se exilarem por questões mais sérias que as apenas de política.Veja que antigamente as pessoas chamavam os intelectuais porque queriam os talentos. Hoje talento é o que menos importa.

5) Nos dê a sua opinião sobre a questão das Leis de Incentivo, e suas sugestões de como deveriam ser.

Geralmente, os verdadeiros artistas tem muitas dificuldades de entender as tais leis, que são herméticas para os criadores, na maioria dos casos.

E num país como o Brasil, onde o poder e a sociedade são praticamente coisas distintas, fica muito sofrido; então, como não são muito simples e claras,

acho-as fracas. As leis que deveriam de fato a ver seria que a própria sociedade passasse a valorizar as pessoas que possuem capital intelectual, o que não ocorre hoje. Grande parte da humanidade não quer saber

de conhecimento nem de arte e quando não há interesses nesses temas, ou os mesmos não são valorizados, existe uma decadência geral como vemos que ocorre.

Precisa o estado mandar que se leia? No caso do Brasil, sim, porque o povo nem sabe ainda que sem ler ele não desenvolve a imaginação, nem a intuição, nem o pensamento, nem o sentimento. E a experiência pessoal e os fatos nos mostram que sem cultura o ser humano cria problemas e violência.

Acho que as leis de incentivo deveriam ser a leitura como matéria ormadora em todas as áreas do saber; especialização não é inteligência;  um médico, um advogado, um engenheiro podem ser excelente especialistas

e pessoas absolutamente incultas. Assim como tem minha casa, minha vida; deveria ter, meu livro, meu amigo.

Sem marketing, 10 por cento de pessoas vão fazer o que tem que ser feito.

Os outros noventa por cento, terão “um modo diferente de ver as coisas”.

Para ser franco, todo sábio vê as coisas do mesmo jeito, ao menos as essenciais.

Enfim, no país ler deveria ser incentivado de forma que quem lesse mais e melhor ganhasse proveito , passaria a ter bolsas e tudo.

Um dia, quando a vida permitir, vou ler um edital qualquer desses. No momento, não tenho tempo.

6) Sua tenacidade como escritor é extraordinária. Além da explosão criativa de um artista, existe a fé em dias melhores?

Veja, meu caro, eu sou cavaleiro de uma Tradição que tem vários nomes, entre as quais os de” filósofos desconhecidos” e cremos sempre que a natureza do universo é positiva no geral. Doutor Geraud Encausse  foi um dos mestres. Então, filosoficamente falando, sou sempre um otimista no esforço, na vontade, e sobretudo na graça de Deus.

Nós sabemos que se os homens contrariarem a natureza, inclusive a natureza humana, a mesma reagirá, como já vem ocorrendo, de maneira violenta. Os sábios, sabemos também e eles existem, sabem como se retirar ou se prevenir do caos. Por conta da decadência social, acho que a humanidade enquanto espécie vai passar por algumas lições que ao final serão positivas.

Nossa obrigação ética, como indivíduos, deveria ser amar e ajudar aqueles e ao que pudermos. Em relação a minha obra sou otimista porque ela é algo sagrado, da minha vocação e carreira no viver e como dizia um pai de muitos filhos, “Deus cuida”.  Com relação a situação do país, que acredito que é a raz da pergunta, se teremos motivos para escrever livros ainda nas gerações futuras em parte vai depender de escolhermos entre “o lucro ou as pessoas”.

Dias melhores virão se dermos voz e vez a quem de fato tem o que dizer e o que mostrar; senão esses, e não são muitos, buscarão recursos naquele que lhes deu o talento e quem ficar, salve-se quem puder!  O Egito hoje é um bom exemplo de se preferir “O lucro do Poder” e não as pessoas.

Acredito que no fim do Túnel tem Deus, mas estamos no túnel.

7) Num exercício lúdico de imaginação, suponhamos que amanhã você seja nomeado o novo Ministro da Cultura. Qual seria o seu primeiro ato?

Não sei bem todos os poderes que tem um ministro porque o poder que a maioria das gentes procura não é o tipo de poder que me interessa.

Tenho como certo, porém, que o livro teria cinquenta por cento das atenções da minha política e as campanhas institucionais, concursos literários, valorização dos leitores, editores, livrarias seriam uma coisa a fazer parte do imaginário coletivo que, se sabe, é construído. No Ministério da cultura eu mudaria a “cultura” que hoje existe nesse ministério. Existe uma mentalidade que os “artistas” tem que sair com o pires na mãos para serem atendidos em “interesses que deveriam ser de toda a sociedade” e o Brasil tem a coisa do Vício burocrático do sistema. Agora mesmo fui ver um link do site do ministério da cultura e não funcionou direito. Eu sendo ministro ia pensar um modo de as empresas e a sociedade em geral terem terem interesse em procurar o artista e não o contrário. Daria prêmios

para aqueles que cumprissem metas com relação as coisa da leitura e da literatura. Estamos num país em que temos, incrível, que primeiro fazer cérebros pensantes para entender e fazer cultura e depois sim, pensar em que tipo de cultura teremos.O brasileiro só enxerga um grande escritor não pelo que ele escreve, mas se tiver propaganda em cima. Estamos num país bastante primitivo, amigo. Tanto é que as pessoas nem imaginam que o poder, em parte, vem dos livros. Da instrução e não da especialização. O dia que o brasileiro souber que se pode ser médico, advogado, engenheiro e dentista e continuar sendo

tolo, apesar de bom médico, engenheiro e advogado, ele passou a enxergar. mais sendo um poeta, um bom poeta, jamais será um tolo.

Mas como não sou ministro e minha imaginação está mais para Graciliano Ramos que para Garcia Marques e o Brasil para Kafka, melhor passarmos para a outra pergunta, mas que eu mudaria mesmo a política do ministério o deixando mais leve  e menos burocrático  sem dúvidas que sim.

8) E o ECAD? Se nem a irmã do Chico Buarque deu jeito, há alguma esperança desse orgão ter uma regularização razoável?

O amigo já deve ter percebido que evito citar nomes, sobretudo dessas celebridades que parecem não ter mais opiniões e estão os famosos,  que ainda são do tempo onde o talento ainda contava e eles apareciam, omissos em relação a atual situação. O País, como já dissemos, é extremamente burocrático, viciado ainda na mentalidade da casa grande e senzala e todas essas siglas me parecem obsoletas. Por outro lado, embora eu faça canções, isso é uma coisa ainda secundária por questões praticas. Quem pode apresentar suas canções hoje, com essa coisa horrorosa da música de massa? O drama do país é que as consciências também fazem parte do mercado. Se compram.  Hoje qualquer garoto superdotado do “sertanejo” ou pagode  deve estar ganhando mais dinheiro que o Lobão, por exemplo, que é um cara que mesmo que você não concorde com ele, merece ser ouvido. Os seus livros tem sido muito bem fundamentados, é um cara que lê, não vive de boquinha nem de máfias, embora se você no país não tiver suas alianças, você não sobrevive. O povo em si é ainda amorfo, sem identidade e pouco repara essências. Então, quem teria que reconhecer os talentos? Você que é musico já deve ter percebido que aquele tempo em que as pessoas conversavam com pessoas já passou.  Hoje as pessoas conversam com logotipos e cartões de créditos. A sociedade está mudando e é bom que mude logo por bem por que o mal já está ai na porta.

9) Até quando livro vai ser tão caro no Brasil?

Até que ele seja descoberto como fundamental para a própria sobrevivência humana por aqui. Coisa que hoje passa longe. Em meu livro, eu narro um pouco a saga do que é viver por aqui no cotidiano com a falta de gentileza, graça, informação, cortesia. Jesus disse que o reino dos céus é das criancinhas porque as crianças brincam umas com as outras e depois esquece e brincam novamente no dia seguinte. Os poetas brincam com as palavras, os pintores com as cores e os músicos, com os sons. Proporcionalmente, o livro é caro, mas como disse um leitora de Portugal, lá também é, mas quem quer ler, acha jeito. O que o brasileiro tem que aprender de fato, é ler, coisa que ele ainda não sabe direito. A alfabetização é péssima nesse sentido e se viessem educadores de fora assim como está vindo médicos, para o país seria excelente. Com a educação que tem atualmente, o Brasil está andando de verdade, para trás. E a barbárie pode chegar a tal ponto que nem de graça as pessoas irão querer livros. Por isso, nesse trabalho, eu falo no assunto. Os brasileiros tem que aprender que não se está na vida para ignorar as pessoas, nem os talentos. Eu tenho amigas e conhecidas professoras  que só vão ler um livro meu quando eu ganhar um Nobel, mas para isso eu terei que ir para a Europa. Por que aqui, como se sabe, não se ganha facilmente.

10) Fale-nos sobre seu último trabalho: “O Brasileiro e o Livro”.

Uma vez numa rádio de Curitiba, o apresentador me disse que se você fizer algo bonito e ninguém der valor, lembre-se que o sol dá um espetáculo duas vezes e ninguém repara. Sabemos que é a terra que gira, mas a metáfora é que ele percebeu ao olhar a capa do meu livro “O Tigre De Deus Em Seu Jardim” que ali estava um obra de arte , o que é verdade. Sou, sem fazer alarde, professor de budismo tibetano, embora não tenha ortodoxia religiosa. Inclusive falo no livro que é um absurdo que não se ensine nas escolas quem foi Buda, que é menos conhecido por aqui do que o Maradona. Uma pessoa pode ser um excelente cristão, mas se ignorar as bases de outras religiões, será sempre um cidadão subdesenvolvido. Uma pessoa se torna rica de espírito quando conhece o mundo e não apenas aquilo que lhe interessa. Não sei se ficarei para sempre no Brasil. Sou hispano-brasileiro e tenho interesses na Europa. Senti-me no dever ,portanto,  de tocar no ponto central e afligente  do brasileiro: a leitura. Um país se faz com homens e livros.E leitores, acrescento eu. Não existe grande país sem ter, pelo menos, cinqüenta por cento de gente que sabe a diferença entre mapa e território. Com “O Brasileiro e O livro” sinto ter cumprido bem a tarefa de alertar para que essa relação seja revista.

O ANALFABETISMO EMOCIONAL

O ANALFABETISMO EMOCIONAL

Marcelino Rodriguez

O mais doloroso de todos os analfabetismos dos quais o Brasil sofre de forma pungente é o analfabetismo emocional. Não se gosta de gente no país. Gosta-se de forma apenas primária, as vezes da família e dos amigos, mas basta chegar um estranho no grupo que ao invés das boas vindas, aquela que antigamente se dava ao novo coleguinha na sala de aula, os nativos costumam nem ver o recém-chegado, geralmente um portador de novos potenciais, com um silêncio e uma indiferença que seria cômica se não fosse trágica. Valor subjetivo das pessoas é algo que ainda não faz parte do entendimento dos nacionais do país verde e amarelo. O que se passa?

Na verdade, todo mundo quer ser rei e ter seu feudo de influência, de preferência sem estudar nada, nem se preparar para exercer o domínio da coroa. É o país do “minimo esforço”. A coisa em pouco tempo terá de vir pronta para os brasileiros, pois em um tempo médio será impossível construir novos potenciais de valor, posto que as pessoas, sobretudo se parecerem “pobres” e sem protetores ficarão a margem dos processos criativo e produtivo, sem achar por onde exercerem seus potenciais, que aos poucos, o atual mercado da cultura e da inteligência está ficando cada vez mais entregue a pessoas que deveriam estar em outro lugar mais técnico, e não onde deveria se exercer o valor e as potencialidades humanas. O resultado disso é que os numeros que costumam falar sobre educação não bate com a realidade que vemos, todos os dias, nas ruas e nos noticiários.

Aquele sentimento primário que costumávamos aprender no jardim da infância, de receber e acolher o outro, está se perdendo. Acho que as máquinas estão ensinando a humanidade a ser cada vez mais fria e técnica, em detrimento do valor e do sentir.

Para usar uma parábola ao contrário, num incêndio no país, as pessoas procurariam salvar os bens primeiros, para depois salvar as pessoas. Inverteu-se aqui de forma estúpida a ordem das prioridades. O resultado disso é que cada vez ficamos mais “apenas seres” e menos humanos. Uma população de pessoas que jamais falaria a frase de Babete, a cozinheira francesa, que ganhou na loteria e gastou seu dinheiro todo fazendo um belo banquete e disse “permitam que eu dê o melhor de mim.” Aqui pouca gente pensa em dar ou fazer alguma coisa para os outros ou para a republica. Isso ainda está um pouco acima da imensa maioria do povo. O amor ao outro ainda não foi ensinado, nem em casa nem nas escolas.

O BRASILEIRO E O LIVRO, ESTUDO DE UMA RELAÇÃO

O BRASILEIRO E O LIVRO, ESTUDO DE UMA RELAÇÃO

CIDADÃOS PRIVADOS DE LITERATURA

Marcelino Rodriguez

O que vou escrever aqui, talvez você pense ser pouco importante, mas lamentavelmente a realidade aqui exposta afeta a vida de seus filhos e netos; gostaria, portanto, que esse fato lhe tocasse a ajudar a mudar o quadro da maneira como o livro e a leitura como hábito  é negligenciado no Brasil e com isso, claro, também os escritores e outros produtores de cultura.

Os brasileiros são cidadãos privados de literatura. Ou seja, desconhecem as tradições básicas do pacto civilizatório. Além disso, apresentam desconhecimento quase que completo da inteligência simbólica e do próprio funcionamento do mundo social, revelando um comportamento primário, com fraca empatia humana, intolerância diante das diferenças, unilateralismo mental e pelo que se conversa no país e vemos no dia a dia, não se pode esperar criação de grandezas humanas. Embora ,é claro, existam sujeitos excepcionais aqui e ali, a massa do povo nasce, cresce e morre sem instrumental de cérebro para apreciar uma obra de profundidade média. Pior, os sujeitos excepcionais encontram um terreno muito pedregoso para vingar. O homem comum não vê o intelectual como portador de algum tipo de riqueza ou diferencial. Estamos falando de massas, não de exceções; com isso, com essa falta de cidadãos leitores, o subdesenvolvimento se mostra evidente em todo desconforto que sentimos em nosso dia a dia.  A vida é banalizada e o “tudo que move é sagrado” não pode existir em mentes unilaterais. A questão perante essa inoperância em formar cidadãos que despertem sensos humanos básicos (que fazem parte do ser humano) tais como empatia, imaginação, curiosidade e graça é : será uma condenação eterna do país, ter uma gente sem informação nem assunto? Será essa condenação eterna?

Somos agentes da história ou cidadãos inertes? Existe uma história muito tradicional do mundo da espiritualidade que Jesus vivia chamando um sujeito que estava em cima do muro, enquanto o diabo ficava quieto ouvindo seus ritmos. Jesus insistia em que o sujeito pulasse para seu lado, o diabo quieto. Até que chega uma hora que o sujeito pergunta ao diabo porque ele também não o chamava.

— O muro é meu, meu caro.

Portanto, caro leitor, não existe meio termo entre luz e trevas; não se pode agradar a dois senhores. Em vinte anos, entre 1980 a 2000, teve mais homicídios no país que a maioria das guerras. Decerto,, os praticantes dessas mortes, ao menos noventa e cinco por cento deles, com toda certeza, não eram leitores. Seu filho ou neto poderia ser uma das vítimas. A indiferença, no caso do Brasil, não favorece o bem e sim ao mal. Uma quantia incalculável de dinheiro e bem estar social se perde com um pouco subletrado.

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