O MISTÉRIO DA CHAPECOENSE

O MISTÉRIO DA CHAPECOENSE

Marcelino Rodriguez

Nós vivemos num mundo que, basicamente, nos vende mentiras. Quem já saiu da idade do Chapeuzinho Vermelho e observou a humanidade filosoficamente, sabe que deve ter pouca gente no céu. Pouquíssimas. Nem nas irmandades, nem nas igrejas, nem em lugar nenhum, achamos facilmente quem nos traga um pouco de paz, alegria e felicidade. Schopenhauer estava certo ao dizer que para não nos sentirmos sozinhos e miseráveis, deveríamos recorrer a bondade dos cães.

Eu me sinto no inferno ao saber que de cada três pessoas no país em que vivo, Brasil, é quase um milagre achar alguém que compreenda as regras do sistema solar, ou que tenha sido educado para respeitar os livros como coisa sagrada. Daqui há pouco terei 80.000 livros com minhas genialidades escritas e ninguém vai saber que sou um Gênio Incompreendido. Hoje em dia, a grande arte humana é nos desprezarmos em troca de alguns cliques superficiais no celular. Parei de namorar por protesto, porque as mulheres andaram abusando sexualmente de mim, e depois me deixaram sozinho quando descobriram que eu não estava na lista dos mais vendidos. A gente já não sabe mais quem é polícia, quem é ladrão. Tem dias que olho para o céu e fico me perguntando quando é que os anjos chegam para baixar o cacete e limpar a área. Não tenho mais nenhum paciência com egos falantes, nem com o meu.

O grande caso é que no fim de semana, eu pensei, no meio dos meus infernos: “Bem, essa semana tem o jogo da Chapecoense”. Fora um dinheiro que me deviam e demoravam a pagar, não havia nenhum outro sinal de que eu pudesse ter uma felicidade qualquer. A Chapecoense era minha única perspectiva. Pois bem. Meio de madrugada e sem acreditar, fiquei sabendo que um avião da Chapecoense tinha caído com jovens e pensei que era o sub vinte, algo assim, posto que se falava em muitos jovens mortos. Eu não imaginei que aqueles jovens eram os que eu iria acompanhar durante a semana.

Os únicos seres que sinalizavam uma alegria diferente na minha semana. Os meninos da Chape não eram zumbis. E Mário Sérgio, um grande “Marginal” do futebol estava com eles. Era um Vilão querido para mim. Lembro-me vagamente até que ele já deu uns tiros nos seus bons tempos de jogador , tiros para o alto ou coisa parecida. Tinha personalidade. Coisa difícil de se encontrar hoje. Todos sabem que sou torcedor do América e esse é meu único time, o segundo de todos. Hoje, o meu segundo time no Brasil é a Chapecoense. Morreu no alto, morreu grande, sem nunca cair. E quando caiu na morte, o mundo levantou. A Chape permitiu que o planeta respirasse por instantes preciosos o esquecido senso de unidade de todos nós, pobres mortais.

No céu, Mario Sérgio deve estar dando susto nos anjos. O Mistério da Chapecoense, dessa equipe em particular, pertence a simpatia mágica dos predestinados. Vá com Deus, equipe Chapecoense. Por breves dias, talvez, você uniu os corações do mundo, tão mesquinhos, na maioria das vezes. A morte de Herói é para poucos.

01.12.2016america paixao imortal 11

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