A MULHER DO NINJA

A MULHER DO NINJA

Marcelino Rodriguez

Natanael ficava bastante curioso de saber como o seu mestre, o Ninja, vivia com Madalena trinta anos numa harmonia que parecia que o casal havia treinado por séculos. Um dia, aproveitando que o Ninja tinha se dado ao luxo de tomar uma chandon a mais, resolveu descobrir o segredo do casal...
— Mestre, posso perguntar uma coisa?
— Pode, gafanhoto.
— A dona Madalena nunca discutiu com o senhor?
— Uma única vez, para me pedir em casamento. Não tive escolha.
— Como assim, mestre?
— Madalena passou comigo fome, frio, calor, duas guerras mundiais, balas perdidas, seqüestros, inundações, terremotos, ameaça de apocalipses, pesadelos, falências e um dia, duas semanas após eu ganhar minha fortuna como Ninja Maior, ela me chamou para discutir relação, trazendo uma dessas chandons que você me vê bebendo hoje. Lembro bem: era uma noite de lua cheia. Foi quando ela disse:
— Amor, vamos discutir a relação?
— Tá bom, amor, pode dizer onde eu assino – foi tudo que eu disse, gafanhoto. Madalena também é da raça das Ninjas.

Anúncios

DOS AMORES VIRTUAIS

EGOÍSMO E FELICIDADE

Marcelino Rodriguez

Esses dias li uma frase interessante no Facebook: “Achar duas pessoas que se amem, hoje em dia, é tão difícil como ganhar na mega-sena.” Também leio outras frases exaltando a liberdade e a felicidade infinita e sem limites, onde não existe a mínima preocupação com o próximo. Nesse tempo de clicadas e ficadas tempos líquidos de egolatria como dizem os especialistas, a profundidade e o mistério humano parecem estar perdendo seu valor. A facilidade dos contatos parece nos prometer uma felicidade de flertes infinitos. Os neófitos caem nessa. Os escaldados, todavia, conhecedores das estatísticas e observadores por experiência da vida, sabem que encontrar alguém capaz de dar amor verdadeiro é mais difícil ainda que ganhar na mega-sena.

Não existe felicidade nenhuma no egoísmo. A felicidade suprema está em dar amor, mais ainda do que em receber.

O caso é que com tanta aparente oferta não se acha facilmente, por incrível que pareça, nessa pobreza superficial de nosso tempo, gente interessante nem para amar nem para ser amada. É preciso observar o mundo real, que é ao vivo, a cores e após a noite. Os grandes amantes se revelam no café da manhã. Aprender cuidar do que se conquista é o primeiro mandamento para ser feliz.